Infinito Vão

Relação entre a Flip e Paraty é tema de debate em Portugal

Pode uma festa literária modificar o tecido urbano? Trazer novas práticas e novas maneiras de usufruir do espaço público? Colaborar com o desenvolvimento econômico e social de uma cidade? Essas foram algumas das questões que nortearam a mesa "Urbanidades", realizada no último sábado (8/12), na Casa da Arquitectura, em Matosinhos, Portugal. A mesa, parte da mostra Infinito Vão, sobre os 90 anos da moderna arquitetura brasileira,destacou o caso da Flip, que nasceu a partir de uma série de estudos sobre a formação urbana e a cultura paratiense ao longo dos anos 1990. A Festa Literária foi representada na mesa pelo arquiteto Mauro Munhoz, diretor artístico da Flip. O debate contou com a presença de Fernando de Mello Franco,ex-Secretário de Desenvolvimento Urbano do Município de São Paulo; Sergio Magalhães, presidente do Comitê Organizador do 27º Congresso Mundial de Arquitetos UIA 2020 RIO; o vereador do Urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa,Manuel Salgado, e o vereador do Urbanismo da Câmara do Porto, Pedro Baganha. A mesa teve mediação do escritor e editor português Jorge Reis-Sá.


Em sua fala, Munhoz apresentou ao público o processo de formação urbana de Paraty no Brasil Colônia e seu processo de isolamento a partir do século 19, que permitiu a ela preservar o Centro Histórico e, até os anos 1970, parte de sua vegetação original. “Nos anos 60, Paraty foi inserida em um circuito frequentado por pessoas de cinema,música, artes visuais e literatura”, disse o arquiteto, em sua apresentação.“Esses artistas que tomaram contato com a cidade desencadearam seu processo de tombamento, realizado no ano de 1974, quando Paraty é declarada Patrimônio Histórico Nacional.”

 

O processo de urbanização, a partir da criação da rodovia Rio-Santos, levou a cidade a realizar intervenções sem planejamento e a desmatar a vegetação. As ações levaram a uma alteração na paisagem e efeitos danosos sobre o município, como enchentes e a divisão de Paraty entre a “cidade visível”, que guarda seu patrimônio histórico, e a“cidade invisível”, que, por sua vez conserva parte da cultura da população.

 

Nesse contexto, foi criado pelo arquiteto, em 1994, o Projeto de Requalificação dos Espaços Públicos de Borda d’Água de Paraty e, a partir dele, a Associação Casa Azul, que faz a Flip, e articula áreas como a arquitetura, o urbanismo, a educação, a arte e a cultura.“Trabalhamos sempre em consonância com a leitura que a comunidade faz das relações que estabelece no local que habita”, afirma Munhoz. “Foi dessa interpretação de Paraty que nasceu a Flip.”

 

Entre as intervenções urbanas promovidas pela Flip desde sua primeira edição, em 2003, o arquiteto destaca a requalificação da Praça da Matriz a partir de seu desenho original, dos anos 1910, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). “A Praça é, hoje, o eixo central da Flip. A sua requalificação, trouxe, ainda, outros ganhos para a cidade, estimulando, por exemplo, a requalificação do Cinema da Praça (reinaugurado em julho de 2018)”,disse. “O que a Flip proporciona a Paraty, além dos resultados econômicos medidos pelo Ministério da Cultura, é, justamente, a geração de uma cadeia cultural na cidade. Nesses 15 anos, vimos a Casa da Cultura ser reativada; o número de livrarias e bibliotecas se ampliarem e uma geração ser formada nesse ambiente cultural. Essa cadeia amplia as perspectivas da população e da própria cidade, que volta-se para a geração de um turismo cultural, qualificado, e deixa de voltar-se apenas ao turismo de veraneio, predatório.” O arquiteto acrescenta que “quando se fala em participação social costuma se pensar em audiências públicas. Mas a ocupação dos espaços públicos a partir da cultura também são formas de participação, fundamentais para os processos de transformação social, cultural e urbana.”

 

No dia 9 de dezembro foi realizado o encontro literário “Entre Casas”, na Casa de Chá de Boa Nova. O encontro, que tratou da relação entre literatura e arquitetura, reuniu o escritor português Gonçalo M. Tavares, o curador Agnaldo Farias, professor de Arquitetura da Universidade de São Paulo, e o poeta Eucanaã Ferraz, professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro e consultor de literatura do Instituto Moreira Salles (IMS).

 

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