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O exercício da liberdade na escrita e a quebra de tabus

Na penúltima mesa desta sexta-feira, “Interdito”, André Aciman e Leïla Slimani lotaram o Auditório da Matriz em conversa mediada pela jornalista portuguesa Anabela Ribeiro. Os temas abordados giraram em torno de questões como o amor e a intimidade. A literatura e o universo dos livros, tanto dos convidados quanto de autores clássicos como Virginia Woolf, também estiveram presentes nas respostas.


Nascido no Egito e radicado nos Estados Unidos, Aciman é autor do livro Me Chame Pelo Seu Nome (Intrínseca), que trata da relação amorosa entre Elio e Oliver. A obra ganhou fama mundial ao ser adaptada para o cinema. “Este livro é um fogo que rasga as entranhas”, definiu a mediadora. Já a franco-marroquina Slimani, escrevendo a partir de Paris, teve os direitos de seu romance Canção de Ninar (Tusquets) negociado em pelo menos 36 países, e ganhou o Goncourt, principal prêmio literário da França. O livro explora, de forma visceral – a babá aparentemente perfeita assassina os filhos de um casal de classe média –, as contradições da maternidade, além de estereótipos de gênero, classe e raça.


Anabela Ribeiro quis saber como os escritores definem intimidade. Para Aciman, a forma máxima de intimidade é o amor, porque “o amor nos devolve uma imagem de nós mesmos e nos faz sentir em casa. Se não podemos amar a nós mesmos, não podemos amar ninguém. Você sou eu e eu sou você. Se você não está presente, eu não tenho uma casa”, falou. A fala que ecoa o tom romântico de Me Chame Pelo Seu Nome foi bastante ovacionada.


A visão da franco-marroquina, por sua vez, reflete as relações familiares, que podem ao mesmo confortar e aprisionar. “Meus livros se passam no mundo da intimidade, da vida doméstica, um lugar ambíguo e paradoxal. Minha família me protegia, mas me impedia de ser inteiramente o que sou - algo de mim deveria ser escondido”, relatou. “Mas não é possível acreditar que uma casa é sempre calma: um homem, uma mulher e uma criança passam por conflitos domésticos”, completou.


A partir desta fala de Slimani, os autores discorreram sobre os próprios espaços íntimos, lugares físicos e mentais nos quais se sentem completamente em contato consigo mesmos. É a partir desses lugares que escrevem seus livros. Neste ponto, a mediadora fez referência ao ensaio Um Teto Todo Seu, em que Virginia Woolf aborda a necessidade de independência, tanto financeira quanto em relação aos afazeres domésticos, para que a mulher consiga desenvolver sua obra. “Tenho duas crianças, uma de sete e uma de um ano, e é uma guerra trabalhar em casa. Tenho que me fechar, preciso preservar meu espaço”, afirmou Slimani. Aciman disse que “a vida de um escritor é muito solitária”, mas que é este isolamento que lhe permite ser quem é. “Mas quando nós, escritores, saímos dos nossos quartos, nos relacionamos com outras pessoas”, brincou.


Ao final, ambos leram trechos de seus livros. Slimani, um fragmento de Canção de Ninar, e Aciman um excerto de Variações Enigma, que acaba de sair no Brasil.

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