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O desejo como elemento fundamental à criação literária

“É como se você vivesse duas vezes. Quando você vivencia realmente e, outra vez, quando escreve sobre aquilo”, disse Sérgio Sant’Anna. O escritor, que está celebrando cinquenta anos de carreira, participou da mesa Animal agonizante com o português Gustavo Pacheco, que acaba de lançar seu primeiro livro, Alguns humanos. Autores de gerações, estilos e formações diferentes, os dois navegaram por temas como a morte, a linguagem, o erotismo e a barbárie em conversa mediada por Guilherme Freitas.


Antes do início da mesa, a curadora Joselia Aguiar prestou uma homenagem ao poeta Victor Heringer, que morreu em março deste ano. “Um autor que eu queria ter trazido à Flip”, contou. Em vídeo disponível no YouTube e exibido no Auditório da Matriz, Heringer faz uma leitura de poesias de Hilda Hilst que integram a obra Poemas malditos, gozosos e devotos.


Guilherme Freitas iniciou sua fala afirmando: “No fundo somos todos animais agonizantes”. Diplomata e doutor em antropologia, Gustavo Pacheco contou como sua escrita tomou forma. “Passei anos lendo e escrevendo muitos documentos, sempre em linguagem burocrática e seca. Foram quase 15 anos assim. Quando sentei para escrever, veio essa voz [em terceira pessoa].”


Perguntado sobre seu método de trabalho, Sérgio comentou que busca escrever menos e melhor. “Quero escrever com mais prazer e menos tortura. Estou escrevendo muito devagar, um pouco cada dia.” Em tom cômico, o escritor acrescentou: “No Brasil está se escrevendo demais. Tem que ter mais leitores e menos escritores.”


Kafka, Borges, Kerouac, Ginsberg, Woolf, Hilda e Rubem Fonseca passearam pela conversa entre os autores, que contaram também de suas viagens pelo mundo, o que ajudou na composição de suas escritas. Gustavo citou andanças pela Argentina e pelo México; Sérgio, as perambulações pela República Tcheca e pelos Estados Unidos. “A arte é muito movida pela libido. O escritor pode envelhecer, mas se morrer o desejo pelo fazer, acho que aí acabou, né?”, falou Sérgio. Gustavo refletiu também sobre sociedade e barbárie, assunto presente em sua obra, e sobre como nossa cultura repete ciclos de opressão e violência. E ponderou: “As histórias não são só as histórias, mas o que a gente faz delas”.


A política também foi um assunto debatido. Durante a ditadura militar, por ser da oposição ao governo antidemocrático, Sérgio foi demitido e chegou a responder processo. Lamentou a perseguição, a prisão e tortura de amigos, e os mecanismos daquela estrutura política. “Fico chocado e chateado quando vejo pessoas apoiarem a volta da ditadura. Espero que isso nunca aconteça mais, uma ditadura militar.”

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