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O caráter mítico dos manuscritos medievais

A mesa literária “Encontro com livros notáveis”, com Christopher de Hamel e mediação de Lilia Schwarcz, concentrou-se na obra mais recente do autor, Manuscritos notáveis (Companhia das Letras, 2017), no qual há uma descrição detalhada de doze textos antigos, que estão guardados em diferentes bibliotecas pelo mundo. No livro, De Hamel busca transmitir a experiência de ter nas mãos um manuscrito único. Um verdadeiro apaixonado por esses documentos antigos, o inglês contou que a sensação de estar frente a frente com livros como Evangelho de Santo Agostinho ou Livro de Kells se parece com estar diante de uma pessoa muito famosa – só que 600 anos depois.

 

A palavra manuscrito significa “livro feito à mão” – já que, na época em que eram predominantes, não havia impressão. No século XV, cada manuscrito era copiado manualmente em pergaminhos feitos de pele de vaca ou de carneiro. O autor explicou que o formato dos livros que conhecemos hoje se deve às dobras que se faziam na pele desses animais na Idade Média. Quando mostrou imagens de algumas iluminuras feitas com folha de ouro, Christopher de Hamel surpreendeu a plateia ao soprar pedacinhos de ouro diante de si, provocando uma pequena chuva dourada no palco do Auditório da Matriz.


“Tudo o que sabemos sobre a Idade Média é uma cópia da cópia da cópia. As pessoas não procuravam originalidade, mas sim habilidade na transmissão de um conhecimento antigo de uma geração a outra.” Respondendo à pergunta sobre a diferença do conceito atual de plágio em comparação ao que ocorria na Idade Média, De Hamel explicou que, ainda que os manuscritos sejam sempre reproduções de um original, todos eles são também únicos e insubstituíveis, pois cada um contém elementos feitos pelas mãos de alguém. “Os manuscritos são como as pessoas: todos são fascinantes.”


O autor, cujo filho vai se casar com uma brasileira no próximo sábado (28.07), disse que nunca foi à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, mas que agora finalmente terá a oportunidade de conhecer o espaço. Quando questionado sobre seu manuscrito predileto, De Hamel respondeu com convicção: “Eu gosto de todos, não tenho preferência. O livro que escrevi é sobre doze manuscritos muito famosos, mas eu ficaria tão feliz quanto escrevendo sobre manuscritos horríveis em condições péssimas”. E finalizou dizendo que “graças a Deus, nós nunca vamos descobrir tudo sobre esses textos: isso vai continuar para além das nossas vidas”.

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