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Mabanckou exalta origens africanas em mesa bem-humorada

Ao falar da literatura do escritor Alain Mabanckou, autor convidado da mesa “Memórias do porco-espinho”, José Luiz Passos mencionou a presença de um sofrimento profundo e as recorrentes cenas de violência contidas nos livros do escritor franco-congolês. “Mas tudo é composto com grande compaixão. Isso me impressiona e me comove”, afirmou Passos, que é colega de trabalho de Mabanckou nos Estados Unidos – ambos são professores na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). O escritor Silvio Almeida também integrou a conversa, que marca um novo formato de mesa na Flip, com dois entrevistadores. Intimidade, futebol, filosofia, racismo e identidade estiveram entre os assuntos abordados.


Nascido na República do Congo, Mabanckou mudou-se ainda jovem para a França. Atualmente vive nos Estados Unidos e é autor de ensaios, de livros de literatura infantil e juvenil, romance e poesia. Em 2017, lançou no Brasil a obra Memórias de porco-espinho (Malê), que o escritor afirmou ser o seu “romance mais africano”, no sentido de tentar honrar a força da oralidade das línguas de sua terra natal. “É nesse romance que faço homenagem ao conto, à fábula africana. Sempre pensei sobre como dizer a oralidade”, completou. Na sequência, comentou a importância das memórias da infância em sua produção literária. “A infância é um lugar aonde vou de tempos em tempos para me inspirar, para recordar o meu país, o Congo.”


Perguntado por Silvio Almeida sobre o devir-negro no mundo – conceito do cientista político Achille Mbembe –, segundo o qual “devido às condições capitalistas mesmo as pessoas brancas vão aprender o que é ser negro”, Mabanckou deu sua perspectiva sobre racismo e identidade. “Aquele que pede aos africanos que sejam mais africanos está tão doente quanto o branco racista. O destino de uma pessoa é se abrir mais e não se fechar.” Ao que completou: “A Europa sempre acreditou ser superior. Foi responsável pela colonização e escravidão e por concessões. Pegou tudo de nós, mas nunca conseguiu capturar a cultura africana.” Na sequência, Mabanckou comemorou a genialidade de Pelé, além da vitória da França, unindo forças com jogadores africanos, na Copa do Mundo.


Mais adiante na conversa, José Luiz Passos tirou de sua bolsa um boneco de porco-espinho e pediu que Mabanckou falasse a seu “duplo nocivo” – uma referência ao protagonista do livro – sobre uma declaração de ser contrário a uma literatura que comercialize o sofrimento. Bem-humorado, o escritor divertiu-se com o boneco e lançou a resposta: “Diria ao porco-espinho que não gosto da literatura que vende o sofrimento, mas sim da que exalta o entusiasmo, da que salva – da que fala do sofrimento para sermos lembrados de que, sim, somos pessoas que sofrem, mas com dignidade e orgulho de nós mesmos”.

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