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Liudmila Petruchévskaia sintetiza a transgressão de Hilda Hilst

A mesa “No pomar do incomum” parou a noite de sábado na 16ª Festa Literária Internacional de Paraty. A escritora russa Liudmila Petruchévskaia, que foi publicada no Brasil pela primeira vez este ano com livro Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: histórias e contos de fadas assustadores (Companhia das Letras), quebrou o protocolo e foi ovacionada.


A conversa aconteceu praticamente toda em pé, com a autora no centro, a mediadora Anabela Mota Ribeiro à sua esquerda, e o filho de Liudmila, Fiódor Pávlov Andrêievitch, à direita, traduzindo para a mãe as perguntas. O artista, embora seja nascido em Moscou, mora no Brasil e fala português. Mesmo com tropeços na tradução devido ao sotaque de Portugal de Anabela, o bate-papo não deixou de divertir o público. Quando a jornalista portuguesa quis saber sobre a alcova na qual os personagens dos contos da escritora guardam suas comidas, o filho não entendeu a palavra e disse que, na realidade, não há alcovas nos textos da mãe. Anabela então emendou: “Qual é a sua comida preferida?”. Ao que a escritora respondeu: “Pão preto.”


Liudmila, de 80 anos, foi considerada inimiga do povo pelo regime stalinista e teve sua obra censurada até a redemocratização. A mediadora pontuou que a autora tem a “capacidade rara para ver as coisas que se passam nas sombras, na escuridão, no para lá do mundo. Há cenários de devastação, mulheres abandonadas, pessoas que são objetos de escárnio e feitiço. Há dor e incivilidade, qualquer coisa onde as palavras não chegam.”


Sobre sua infância difícil, a escritora contou que tinha três anos quando a Segunda Guerra Mundial começou e três membros de sua família foram assassinados. Passou fome – “havia 1kg de pão para três pessoas durante dois dias” – mas usou a imaginação para sobreviver. Abriu a lixeira da cozinha e tirou restos de peixe e de batata para se alimentar. Liudmila contou ainda que pediu esmola quando criança, e que a vida dura “lhe ensinou a fugir, mas não a roubar”.


Ao tratar sobre sua formação literária, afirmou que a avó lia Nikolai Gogol para ela, e que foi do escritor russo que tirou a lição máxima de sua vida como escritora: ouvir as pessoas. “Gogol não inventava o que escrevia, ele apenas ouvia e passava seus causos para o papel. Se você ouvir, as pessoas vão lhe contar histórias tão assustadoras que é impossível você as ter inventado.”


Na meia hora final da mesa, Liudmila fez um pocket show. As cadeiras foram recolhidas do palco, que ela ocupou sozinha, vestida de preto dos pés à cabeça, de chapéu e acessórios que pareciam os de uma dama do início do século 20. A autora começou cantando em francês, emendou com Only you e fechou com Besame mucho. A plateia acompanhou a cantoria em um momento catártico. A russa só parou porque o filho a avisou que estava na hora de acabar o show. Mas queria continuar. Transgressora, a escritora lembrou uma outra mulher que não seguia a cartilha: Hilda Hilst.

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