autor convidado

Leia um poema de Ricardo Domeneck

Medir com as próprias mãos a febre (7Letras, 2015) é o sexto livro do poeta brasileiro Ricardo Domeneck, hoje radicado na Alemanha. A publicação se inicia com referências a estátuas gregas e termina no túmulo do cineasta japonês Yasujirō Ozu. No meio dessa viagem, há o poema “Carta ao pai”, citação direta do título do livro de Franz Kafka.


Na Flip, que acontece de 25 a 29 de julho, em Paraty, Ricardo Domeneck integra a mesa 7, Poeta na torre de capim, com Ligia Fonseca Ferreira. 


Leia o poema: 


Carta ao pai

 

Agora que o senhor

mais assemelha pedaço

de carne com dois olhos

dirigidos ao teto escuro

no leito em que provável

só não há-de morrer só

porque nem a própria

saliva poderá engolir

por sina companhia

somente desta sonda

que o alimenta

me pergunto se ainda

em validade a proibição

da mãe em confessar

ao senhor os hábitos

amorosos das mucosas

que são minhas

e se deveras me amaria

tanto menos soubesse

quanta fricção já tiveram

que não lhes cabia

biológica ou religiosa

-mente e se também

pediria para sua filho a

a morte que desejou

a tantos de minha laia

quando surgiam na tela

da Globo da Record

da Manchete do SBT

que sempre constituíram

seu cordão umbilical

com a tradição

e se deveras faria

sobrevir a eles

grande destruição

pela violência

com que urrava

seus xingamentos

típicos de macho

nascido no interior

desse país de machos

interiores e quebrados

em seus orgulhos falhos

de crer que o pai

é o que abarrota

geladeiras e não deixa

que falte à mesa

o alimento que nutre

as mesmas mucosas

em que corre

o seu sangue

mas não seu Deus

e ora neste leito partido

o cérebro em veias

como riachos insistentes

em correr

fora das margens

se o senhor

soubesse o dolo

com que manchei

a mesa

de todos os patriarcas

ainda pergunto-me

se me receberia

com a mansidão

que aceita na testa

o beijo desta sua filhoa

que nada mais é

que a sua imagem

e semelhança invertidas

tal espelho

que refletisse opostos

de gênero e religião

ou o desenho

animado na infância

de uma Sala de Justiça

onde numa tela

podia-se observar

um mundo ao avesso

e se o Pai e o pai

odeiam deveras

o gerado nas normas

da Biologia e Religião

mais tarde porém gerido

na transgressão das leis

que o Pai e o pai

impõem-nos na ciência

de sermos todos falhos

nessa Terra onde procriar

é tão frequente

que gere prazer

nenhum e olho

o senhor

com essas pupilas

que talvez jamais

reflitam o Pai

mas ora veem o pai

eu

mesmo pedaço

de carne

com dois olhos

peço perdão

em silêncio

pois sequer posso

dizer que não

mais há tempo

e mesmo assim

e porém

e no entanto

e contudo

pelo  medo adversativo

de talvez abalar

uma sistema rudimentar

de alicerces

sob a casa

sob o quarto

sob esta cama

de hospital

emprestada

escolho

uma vez mais

o silêncio




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