autora convidada

Leia um poema de Laura Erber

Terceiro livro de poemas de Laura Erber, A retornada (Relicário, 2017) traz vestígios do trabalho da autora como artista visual, com versos repletos de evocações imagéticas – “O poema é de plástico. A imagem suborna, é o floema, o influxo, o caldo”. Como sugere o nome da publicação, a volta é um tema que circunda os textos, aparecendo às vezes na lembrança de lugares e pessoas do passado, ou na experiência de quase morte e o retorno à consciência.


Leia um poema:


"As imagens significam tudo a princípio. São sólidas. Espaçosas".

                                                                            Heiner Müller

 

 

Os poemas são meio surdos e as imagens a princípio

não são de ninguém. O olho é que inflama. A imagem

chuvisca. Os poemas também mas a imagem arrisca.

O poema incendeia, reconsidera, desiste. Nem a espiral

de um ponto de vista ardentemente perseguido nem grãos

de luz sem destino. O olhar exploratório ainda não é a

imagem. Os poemas são sapatos. As imagens emborcam.

Os poemas são ardências, são porradas. Imagens não

perdoam, o poema trespassa. A palavra rompe a mordaça,

a imagem nem sempre resvala, espera. O poema diz

em nome próprio no parco som das cordaturas.

O espaçamento nos libertará do duplo laço? Mas isso

ainda não é o poema. A imagem regateia. Os poemas

persistem. Abelhas e todo um mundo a ser envenenado.

Imagens duplicam antigas provas de existência.

São escamosas, são amargas, são Medéias. Os poemas

são cansaços. As imagens apodrecem. Os poemas são

incensos, esvoaçam. Poemas ofendem. Imagens acusam.

Epifania é um encontro na luz, uma imagem pode ser

isso e ser também o seu contrário. O poema alastra.

A imagem recua. O poema excita. A palavra é gasta,

a imagem encrua. A imagem puxa o corpo pelos cabelos,

o poema, o punho o logro. No poema eu respiro contigo.

A imagem é sempre outra coisa. O poema vela.

As imagens nos despojam do sudário. Tudo começa

numa cova ou na chispa do artifício. A imagem trincha,

o poema entumesce. Acontece no silêncio de uma

imagem ser escudo. O poema é de plástico. A imagem

suborna, é o floema, o influxo, o caldo. Nem todo

desenho é imagem. O arco do poema enverga a prosa.

A imagem transtorna, vem no vento que espalha os papéis.

O poema glosa. O poema é uma devassa, desce pelas coxas

enquanto a imagem diz vem, é agora. O poema na sombra

das coisas. A imagem cheia de moscas. Vem, é agora.

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