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Isabela Figueiredo e Juliano Pessanha pensam a corporalidade da escrita

Dois autores voltados ao texto que habita o corpo e gera a escrita, à poética do estranhamento e do não lugar se encontraram na mesa “Obscena, de tão lúcida”, mediada por Rita Palmeira. Isabela Figueiredo e Juliano Garcia Pessanha despertaram a emoção da plateia ao perpassar temas como herança familiar e território afetivo.

“O meu caso é paradoxal. Uma escrita de si de quem não tinha um eu. Vivi muitos anos como um lugar devastado”, revelou Juliano. O filósofo brasileiro se comparou a um camaleão para explicar seu processo criativo. O réptil “só sossega quando toma a cor de algo do mundo. Nos primeiros livros, o narrador é um camaleão em trânsito. Hoje não sou nem o camaleão em trânsito, nem o camaleão com cor”.

Nascida em Lourenço Marques, atual Maputo, Moçambique, mas retornada a Portugal aos treze anos, Isabela contou que a matéria-prima de sua literatura saiu de suas primeiras vivências. “No meu passado há muita violência, que vi nos colonialistas e nos colonizados. Escrevo de forma violenta porque a violência existe dentro de mim.”


Um ponto em comum na obra dos autores é que ambos dedicaram livros aos pais. Isabela e Juliano falaram sobre como a presença familiar modelou o que escrevem e como se colocam no mundo. A portuguesa definiu os pais como sagrados e afirmou que só conseguiu escrever a obra recém-publicada Caderno de memórias coloniais (Todavia), sobre sua infância em Maputo, após o pai falecer. “Testemunhei o colonialismo e o racismo. Estive do lado dos colonialistas, pertenci a essa aristocracia. Eu via a realidade à minha volta e a forma terrível como o meu pai tratava seus empregados negros. Desejei escrever sobre isso toda minha vida, sem saber como”, contou.

O desencontro com a mãe, retratada por Juliano no livro Recusa do não-lugar (Ubu), deixou-o disforme, habitando um oco. “Minha poética é da impessoalidade, por não ter florescido como pessoa. Fiquei como se vivesse sempre à espera de um milagre, de um acontecimento”, afirmou.

Para os autores a escrita existe no corpo e por meio dele. “Escrever é um gesto físico. Meu texto é como se fosse um pedaço do meu corpo. Não tem pudor nenhum”, pontuou Juliano. “É o lugar onde acontecem as coisas”, acrescentou. Autora de A gorda, também publicado pela editora Todavia, que trata sobre as questões existenciais e relacionadas ao peso da protagonista, Isabela disse que “o corpo é bom. Não é uma vergonha, um tabu ou um desgosto”.

Arrancando risadas do público com irreverência, os dois comentaram sobre o humor em suas obras, apesar do sofrimento contido nelas. Juliano relacionou riso e angústia: “Acho que aquele rasgado é sempre engraçado. Aqueles que não estão conformados ao mundo têm sempre um gesto obsceno, ou seja, fora de cena.” Rindo, Isabela completou: “Você é mesmo engraçado”.

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