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Hilda Hilst representada na música, na fotografia e no teatro

A sessão de encerramento da 16ª Festa Literária Internacional de Paraty - Flip, neste domingo (29.07), teve como tema a capacidade que o trabalho de Hilda Hilst tem de ultrapassar as fronteiras da literatura e de ser transmutado para outros suportes. Reunidos no palco do Auditório da Matriz estavam três artistas que criaram obras a partir de textos da Autora Homenageada: o cantor e compositor Zeca Baleiro, que fez o disco Ode descontínua e remota para flauta e oboé – de Ariana para Dionísio a partir de dez poemas da escritora; a atriz Iara Jamra, que adaptou para o teatro O caderno rosa de Lori Lamby; e o fotógrafo Eder Chiodetto, que clicou Hilda para o seu livro O lugar do escritor.


Em conversa mediada pelo jornalista Robinson Borges, os convidados falaram sobre o processo de transfiguração de Hilda Hilst para as suas áreas de atuação. Chiodetto disse que a escritora encarnava uma persona constantemente: “Era muito difícil fotografar a Hilda humana, ela não saía do personagem. No fim o que fotografei foi esse personagem”. Ele relatou as três vezes em que esteve com a poeta na Casa do Sol, lugar onde ela morava em Campinas, dando destaque para a ocasião em que Hilda revirou gavetas e baús em busca de roupas específicas para a sessão de fotos publicadas em O lugar do escritor (Cosac Naify, 2002).

Jamra teve contato com a obra de Hilda Hilst pela primeira vez nos anos 1990. Decidiu encenar O caderno rosa de Lori Lamby porque este era “o livro alegre” da autora. A obra que levanta polêmicas por ter como personagem uma criança de 8 anos prostituída pelos pais, é marcada por um tom irônico que gera questionamentos sobre a representação do sexo na literatura.


A atriz contou que havia feito papeis infantis, de meninas, em praticamente toda a sua carreira, e que Hilda teria dito a ela que havia chegado o momento de encenar “algo mais picante”. Dirigida por Beth Coelho e com trechos selecionados pelo escritor Reinaldo Moraes – autor de Pornopopéia –, a peça estreou em 1999 e voltou para curta temporada em São Paulo neste ano.  “Encenar O caderno rosa de Lori Lamby naquele ano foi menos chocante do que em 2018”, comentou Jamra, em referência aos tempos conservadores que vivemos.

Zeca Baleiro, por sua vez, teve contato com a escritora por meio do amigo Edson Duarte: ele teria levado à Hilda um exemplar autografado do primeiro disco do músico. Três dias depois, contou Baleiro, Hilda ligou para ele, falou com a voz rouca e fragilizada em função de uma isquemia que havia sofrido: “Zeca, estou cansada de fazer literatura, quero fazer música agora. Esse negócio de literatura não dá dinheiro pra ninguém, música dá?”. Já naquela primeira ligação, a autora declamou um poema. Este foi o início da parceria e do disco, que levou cerca de quatro anos para ficar pronto e só foi lançado após o falecimento de Hilda, em 2004. “Não cabia fazer um disco pop. Musiquei a atmosfera medieval dela, seu universo de dor e solidão”, concluiu. A sessão terminou com Zeca interpretando duas canções do álbum.

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