mesa 11

Hilda Hilst e a literatura que concebe o inconcebível

“Que boa ideia a de Joselia Aguiar: trazer Hilda Hilst para a Flip”. Com essa frase Eliane Robert Moraes, pesquisadora e professora de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP), iniciou a mesa “A santa e a serpente”, uma verdadeira aula sobre Hilda Hilst. A atriz Iara Jamra, que encarnou no teatro Lori Lamby, a personagem mais famosa da Autora Homenageada, também integrou a mesa e leu trechos da obra da escritora.


Eliane, uma das maiores conhecedoras da literatura erótica no Brasil, é especialista em autores como Georges Bataille e Marquês de Sade. Sua relação com Hilda Hilst iniciou-se a partir da leitura de O caderno rosa de Lori Lamby. Depois de ter publicado um texto crítico sobre o livro, ela recebeu uma ligação da própria escritora. Na sequência, as duas se encontraram e estabeleceram um diálogo literário.


Alice Sant’Anna, mediadora da mesa e atual editora da obra completa em poesia e prosa da Autora Homenageada, pontuou que o corpo é um dos temas mais presentes na obra de Hilda Hilst. A partir disso, Eliane traçou um perfil aprofundado da autora e disse: “Vejo Hilda como uma escritora que está sempre em transição. Sua literatura é atravessada pelo desejo de dizer tudo e de saber tudo, de chegar perto de Deus.”


Intercalada pelas interpretações de Iara Jamra - a atriz contou que Hilda Hilst assistiu à sua interpretação de Lori Lamby no teatro, nos anos 90 -, Eliane abordou as inversões e os deslocamentos na obra da escritora. “Hilda está constantemente numa gangorra em que de um lado está a consciência da morte e do outro, a consciência da matéria. Por isso o corpo excede a própria matéria: é físico, mas é também metafísico.”

 

Do erótico ao místico, do trágico ao cômico, a escrita de Hilda transcende os gêneros literários. “Trata-se de uma das mais complexas escritoras brasileiras: poeta, prosadora, cronista, dramaturga, tudo isso misturado, desafiando completamente as fronteiras entre os gêneros. A obra de Hilda é impura. A obra de Hilda é degenerada”, disse Eliane.  

 

Ao final da mesa, Iara Jamra interpretou um trecho d’O caderno rosa de Lori Lamby, no qual uma garota de oito anos conta suas experiências sexuais com um homem mais velho. Esse texto, que levantou polêmicas e foi acusado de conter discurso pedófilo, é visto por Eliane como “o único livro alegre de Hilda Hilst”. “Não é pedofilia, é literatura. Não é o horror, é a liberdade. Não é crime, é desvario. O mundo de Lori Lamby não é realista. Hilda nos lembra de que temos todos uma vida secreta. Hilda é excluída e quer se manter no lugar da exclusão: o mundo fora do mundo, o mundo secreto, o mundo louco.”

 

Nas palavras de Eliane, o livro é dedicado à “memória da língua”, enquanto que a mesa, aplaudida de pé pela plateia, é dedicada à memória de Hilda Hilst, uma “autora que teve a coragem de conceber o inconcebível”.

share
Logo da Casa Azul