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Criação poética e liberdade na obra de autoras lusófonas

Nomeada a partir de um verso de Hilda Hilst, a mesa “Barco com asas” reuniu as poetas Júlia de Carvalho Hansen, Laura Erber e Maria Teresa Horta, que participou por vídeo. Ao apresentar a mesa, a curadora da Flip 2018 Joselia Aguiar explicou a ausência física de Maria Teresa: “Ela não toma avião e não havia navio que a trouxesse. Diante de uma impossibilidade física, fizemos como a Hilda faria, usamos a tecnologia para alcançar quem não pode estar do nosso lado”. Com mediação de Guilherme Gontijo Flores, a conversa estabeleceu uma relação entre a poesia brasileira e a portuguesa.


Sobre a trajetória para se tornar poeta, Júlia Hansen relatou a infância em torno de 20 mil livros, na biblioteca da casa em que cresceu, que dispunha de um jardim com mais de 25 mil espécies vegetais. “Tenho entendido que a minha poesia fala de uma relação não hierárquica entre o jardim e a biblioteca. Uma viagem entre eles.” A autora, que também é astróloga, mencionou a presença da poesia em sua vida como um oráculo. “A minha função, como astróloga e poeta, é mais de mediação. Uma intérprete entre mundos”, pontuou. “A astrologia sempre resistiu como conhecimento sensível e de liberdade. Como a poesia.”


Artista visual, escritora, professora em artes cênicas e poeta, Laura Erber acredita que é parte do trabalho do poeta estar sempre em busca do poema, e que o compromisso maior de quem faz poesia é com a língua e a forma. Durante sua infância, a partir de um poema de Cecília Meirelles, “O vestido de Laura”, a mãe da autora fez à filha a peça de roupa descrita no texto. “Um vestido de babados, borboletas e estrelas. Quando ele ficou pronto, entendi que existia uma espécie de passagem secreta do livro para o real. Foi espantoso – uma realidade dentro da realidade.” Erber exaltou também a liberdade dos versos, que não precisam ser úteis, servir a algo. “O poema é uma resistência ao produtivismo em que nos vemos enredados.”


Em vídeo transmitido no telão do Auditório da Matriz, Maria Teresa Horta respondeu a perguntas gravadas previamente. Falou do fazer poético e de sua relação com o texto: “Sou uma apaixonada pela escrita. Não escrevo para demonstrar nada, para ter uma obra. É porque morro se não escrevo, sufoco se não escrevo”. Autora de versos eróticos, relatou um episódio de agressão física relacionado a sua literatura. “’Isso é para tu aprenderes a não escrever como escreves’, falaram enquanto me batiam”. Ao publicar Novas Cartas Portuguesas, em 1971, com Maria Isabel Barreno e Maria Velha da Costa, foi censurada pelo regime salazarista por conteúdo pornográfico. “Eles me perguntaram ‘foi a senhora quem escreveu isso? Não tem vergonha?’”, contou. O episódio da censura fez com que um movimento internacional feminista surgisse no meio editorial para proteger Maria Teresa e as duas coautoras. “A solidariedade faz parte do feminismo. O feminismo é exatamente isso: a solidariedade das mulheres.” Sob aplausos do público, finalizou: “Porque os homens não fizeram grandes coisas é que o mundo está nesse caos”.


Qual é, então, a relação entre a lírica do Brasil e de Portugal? Após morar cinco anos alhures, Júlia afirmou: “Ouvir o português de Portugal explodiu a minha sintaxe. Imediatamente percebi uma possibilidade de reinventar minha escrita”. Maria Teresa falou sobre sua proximidade com a obra de Clarice Lispector, o apreço por Cecília Meirelles e as comparações com o erotismo de Hilda Hilst. “Temos posições muito parecidas na vida, mas uma escrita bem diferente”, finalizou.

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