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Conflitos que residem na língua: identidade e política na literatura

A ideia da linguagem como morada foi o fio condutor da mesa “Minha casa”, com Igiaba Scego e Fabio Pusterla. Segundo Noemi Jaffe, que mediou a conversa, ambos são escritores de fronteira, sejam elas físicas ou metafóricas. Pusterla nasceu em Ticino, na Suíça, região vizinha à Itália, e tem o italiano como língua materna. Scego, de origem somali, vive em Roma, sua cidade natal, e também escreve em italiano. Partindo das tensões e das ambiguidades de falar um idioma que acolhe e ao mesmo tempo expulsa, os dois trataram sobre experiências de trânsito e de deslocamento.


“Escrever em italiano é uma experiência de grandes contradições”, disse Scego. “Eu amo essa língua, mas ela é uma casa difícil, pois durante muitos anos foi a língua do inimigo: até 1964, todos os documentos oficiais da Somália eram escritos em italiano e nós não estudávamos a história de nosso país. O que procuro com a minha escrita é retratar as vidas dos afrodescendentes que tiveram que abandonar suas casas.”


Pusterla afirmou que “a história da poesia italiana e europeia começa por um exílio. Dante foi expulso de sua cidade e teve que vagar pedindo esmola. Se Dante vivesse hoje, seria encontrado no México tentando atravessar o muro que Trump quer construir. A poesia começou dessa forma e é por isso que ela sempre será nômade”.


Cada um à sua maneira, os dois entendem a escrita como um ato político. Autora de Adua (Nós, 2018), Scego denunciou o crescimento do racismo, lembrou o caso da brasileira Marielle Franco e foi intensamente aplaudida: “O mar que circunda a Itália se tornou um cemitério. Não é possível ficar sentado, é preciso fazer alguma coisa”. O escritor suíço, autor do livro Argéman: antologia poética (Macondo, 2018), juntou-se a ela ao dizer que “estamos vivendo, na Europa e no mundo todo, uma época atroz, terrível, em que a direita é quase abertamente fascista, apoiando-se no medo. Se existe um futuro, ele provavelmente está em algo que podemos chamar de humanismo nômade”.


Scego comentou a importância de entender a literatura como uma possibilidade de criar fronteiras que unem em vez de dividir. “Se a Itália fossem mais inteligente, poderia se tornar uma ponte entre a Europa e a África. Mas os políticos não são muito inteligentes.”


A relação entre barbárie e civilização foi outro assunto que uniu os escritores. Se, em Adua, há um episódio no qual a personagem conta sua história para um elefante, um poema de Fabio Pusterla, lido por ele em italiano durante a mesa, também traz imagens de animais – que, nos seus versos, estão prestes a ser levados para um matadouro. “A alteridade do animal e da criança nos revela algo que é alheio e ao mesmo tempo nos pertence, está dentro de nós”, disse o poeta.


Para terminar, Igiaba Scego contou um pouco sobre a sua paixão pela música brasileira e, em especial, por Caetano Veloso, sobre quem ela escreveu o ensaio Caminhando contra o vento (Nós, 2018). “A MPB me ajudou a conhecer minha identidade. Para descobrir a África, eu viajei até a América Latina, onde descobri que o mundo é bonito, mestiço, e que as línguas sempre se misturam.”

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