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Colson Whitehead e Geovani Martins falam de literatura e da questão racial

Na mesa “Atravessar o sol”, o carioca Geovani Martins e o estadunidense Colson Whitehead colocaram seus escritos e contextos sociais em diálogo, sob mediação de Pedro Meira Monteiro. Antes de que os três entrassem no palco do Auditório da Matriz, o poeta e artista visual maranhense Reuben da Rocha fez uma apresentação que uniu música e versos poéticos em referência à obra de Hilda Hilst.


Autor do livro O sol na cabeça, Geovani refletiu sobre o ritmo dilacerante de seus contos. “Minha voz de narrador está tentando acompanhar o processo mental dos personagens. Algumas histórias são muito urgentes, precisam de velocidade de pensamento e ação”, contou. A veia de cronista presente nos textos também foi sublinhada. “Tenho isso de fotografar e pintar o momento como algo urgente, para ele não se perder.”


Escritor e jornalista, Colson esteve no Brasil 24 anos atrás, e a passagem pelo país teve inclusive Paraty como destino. Em tom irreverente, contou que certa noite viu Iemanjá no mar paratiense, com uma caneta em chamas na mão. “Se eu pegasse a caneta, daria certo como escritor”, revelou, aos risos. “Se tem alguém que acreditou em mim foi ela.”


Nascido em Bangu e morador do Vidigal, Geovani pontuou a importância da figura da mãe no universo da favela e também na vida de seus personagens. “Essas mães têm medo de uma interrupção, de perder o filho com 12, 13 anos”, disse.  “A preocupação do filho não é deixar de existir, mas de deixar a mãe sem mais um filho.”


A questão racial na literatura dos dois autores atravessou a conversa em inúmeros momentos. “Os negros são racializados, enquanto os brancos são só pessoas. Jogo com isso na literatura", afirmou Colson. “Não preciso dizer a cor dos meus personagens para os leitores perceberem em quais situações a população negra é vulnerável”, apontou Geovani. Ao falar da conjuntura norte-americana, Colson lamentou profundamente a eleição de Trump. “Presidentes burros já tivemos antes, mas burro e racista, logo após Obama, foi chocante.”

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