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Autores discutem a importância de narrar os mistérios da morte

O contato com os mortos, tema recorrente na vida e na obra de Hilda Hilst, perpassou a mesa Zé Kleber “De malassombros”, a primeira deste domingo (29.07). Thereza Maia, pedagoga e folclorista que reúne histórias orais de Paraty, conversou com Franklin Carvalho, romancista que venceu o prêmio Sesc de literatura em 2016 com o livro Céus e terra (Record).

 

A mediadora Luciana Araujo Marques destacou o fato de que ambos trabalham diferentes aspectos da “indesejada das gentes” - assim o poeta Manuel Bandeira referia-se à morte. 

 

Nascido em Araci, na Bahia, Franklin contou que sua cidade sempre teve uma aura assombrada: “Na minha infância, nos anos 1970, andávamos em ruas escuras e havia muitas lendas em torno do diabo. Entendi logo que precisava encarar esses medos. Depois de enfrentar o pavor, confesso que fiquei mais tranquilo”. O narrador de seu romance é um menino pobre do sertão baiano que morre na primeira página e se angustia com o que lhe acontecerá na sequência. “A maneira que encontrei para lidar com a morte foi dar leveza a essa discussão”, disse o escritor.


No livro Paraty, encantos e malassombros (Santuário, 2005), Thereza coletou uma série de relatos sobre assombrações que rondariam a cidade. A autora explicou, inclusive, que há diferenças terminológicas para se referir a manifestações do além: “Visões e fantasmas circulam por aí, mas não dão medo. Já os malassombros assustam e causam pavor em quem topa com eles”. Depois de contar ao público algumas das histórias coletadas para a obra, disparou a anedota: “Quando Deus estava distribuindo as terras do mundo, o diabo quis saber qual lugar ele ia ganhar. Então Deus mostrou um pontinho à beira-mar e falou: ‘É lá’. E era Paraty.”


Franklin fez uma reflexão sobre o papel que as religiões assumem quando é preciso lidar com a morte. “As pessoas não recorrem à religião porque creem, mas porque querem crer”, disse. “Quando as pessoas veem seres de outro mundo, entidades, cantos, essa é uma forma de entrar em contato com o desconhecido. O homem moderno diz que não acredita em assombração, mas justamente por isso acaba demonizando aqueles que são diferentes dele.”


Para os autores convidados, tematizar a morte é uma maneira de reinventá-la, de evitar que se torne um tabu. “Para mim”, confessou Thereza, “a morte é causadora de uma grande tristeza. Mas resta a esperança da imortalidade e de que as pessoas, em algum plano, continuem vivendo.” Para Franklin, “é importante discutir a morte para que ela não pareça virtual. A gente precisa sentar, conversar e, na medida do possível, preparar as pessoas para o que vai acontecer com todos nós”.

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