mesa 13

Acontecimentos históricos elucidam a atual ascensão da autocracia

Episódios distantes no tempo revelaram-se extremamente atuais na mesa “O poder na alcova”, com Simon Sebag Montefiore, especialista em história da Rússia, que foi entrevistado por Guilherme Freitas e Bruno Gomide. Montefiore retomou o legado de Catarina, a Grande, e de Potemkin – ambos formavam o casal da dinastia Románov que dá nome ao seu livro mais recente. O autor falou também sobre as relações entre Putin e Trump, além de comentar seu trabalho para transformar arquivos russos em narrativas envolventes. “O motivo pelo qual quis escrever meus livros foi para conhecer esse território virgem, inexplorado, e tornar essas histórias acessíveis para qualquer um.”

 

Segundo Montefiore, as cartas entre Catarina e Potemkin revelam que, em governos autocráticos, tudo o que acontece no âmbito privado é significativo. No contato com os manuscritos, o inglês teve acesso a detalhes da vida sexual da monarca e de seu amante. Sobre a leitura desses textos, falou a respeito da sensação de praticamente conseguir ouvir os passos dos mensageiros correndo de um lado para o outro para levar recados. “A correspondência entre os dois era como uma troca de e-mails. Um dizia ‘venha logo fazer amor comigo’, e o outro respondia, ‘estou indo, o que tem para jantar?’”.


Para o escritor, aproximar-se dos antigos czares é uma forma de entender melhor como o poder está configurado hoje. “Vladimir Putin, na verdade, está emulando grandes czares da tradição russa, como Pedro, o Grande, ou Catarina. Essa é uma das razões pelas quais o meu livro está sendo republicado na Rússia”, disse. O autor foi autorizado pelo presidente do país, Vladimir Putin, a ter acesso a arquivos como os de Stalin, tornando-se o primeiro ocidental a explorar esses documentos.


“Stalin foi um assassino, mas foi também um dos maiores criadores de todos os tempos. Ele era um mestre do fake news: sabia muito bem como espalhar boatos e como as grandes mentiras podem ser úteis para os ditadores.” E enfatizou também a importância de prestar atenção no passado para compreender o presente, e vice-versa.


Sobre Trump, afirmou que o presidente dos Estados Unidos “é peculiar e que tem uma verdadeira obsessão pela Rússia. A admiração que ele sente por Putin é como a que os meninos sentem pelo garoto mais durão da escola. Os dois presidentes têm uma coisa em comum: querem fazer de suas nações grandes impérios novamente”. Por conta da fragilidade da democracia atual e do crescimento da autocracia, Montefiore acredita que os escritores estão voltando a ter um papel essencial. “Os escritores vão ter que aparecer mais com as mudanças que estão acontecendo na Europa e nos Estados Unidos. Festivais literários como a Flip estão se tornando cada vez mais importantes, também do ponto de vista político.”


Um dos momentos mais divertidos da mesa foi quando o autor descreveu as grandes festas feitas por Pedro, o Grande, czar do século XVII: “Eram uma mistura de Game of Thrones com Led Zeppelin. Havia anões vestidos de bebês, gigantes nus montados em porcos, mulheres saindo de bolos…O czar entendia que política é teatro. Essas festas projetavam Pedro como um homem acima de qualquer hierarquia”.


Simpático e espirituoso, Montefiore conquistou a plateia e, ao final da mesa, bebeu uma dose de cachaça. “Não vou tomar tanto quanto tomaria Pedro, o Grande. Vai ser só uma pequena dose para essa celebração. Cachaça é a coisa mais deliciosa do mundo.”

share
Logo da Casa Azul