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Tradutores do grego refletem sobre a ética e a estética de sua atividade

A tradução do grego para o português, suas poéticas e escolhas foram tema da mesa "Odi et amo", com o lisboeta Frederico Lourenço e o brasiliense Guilherme Gontijo Flores, ambos tradutores do idioma de Homero. Mediados por Ángel Gurría-Quintana, a dupla animou o público no Auditório da Matriz ao declamar em grego. Antes da conversa, a dramaturga Grace Passô levou ao palco da Flip a performance "Parto", parte da série "Fruto estranho", novidade desta edição. Voltada à ideia de transformar a leitura do texto em experiência teatral, a intervenção combinou palavras e movimentos.

 

Tanto Frederico quanto Guilherme tomaram a iniciativa de traduzir projetos já disponíveis em português, por acreditarem que algo faltava nas versões anteriores. "Tenho interesse pelas poéticas orais, e achava que não havia nenhuma tradução de Safo que aliasse rigor à leitura do texto, agregando notas que combinassem poética e historicidade”, contou Guilherme. Além disso, por entender que são obras de matriz oral, repensou a pontuação, para que os versos pudessem ser lidos em português e em grego da mesma maneira: como canto.

 

Frederico mencionou passagens da Bíblia, texto no qual está centrado atualmente. Seu propósito é oferecer para o leitor lusófono uma obra de teor histórico, exclusivamente linguístico, sem interpretações religiosas. "Queria revelá-la como documento, tratá-la com imparcialidade objetiva, crítica e histórica. Em Portugal é uma grande novidade, devido ao nosso secular catolicismo.”

 

Guilherme cantou versos da poeta Safo, primeiro em grego, depois em português, na tradução que publica no livro “Fragmentos completos”. Argumentou que a tradução deve mesclar ética e estética — e defendeu as especificidades do tradutor e suas vivências, como forma de enriquecer a obra. "A ideia é criar possibilidades de ler em outra língua o texto original, ao mesmo tempo em que se produz uma nova obra, que pode ter um impacto por si só." Ao que concordou Frederico, que se recordou de uma amiga cearense que fez uma tradução de Aristófanes do grego para o português, usando os regionalismos do Ceará. "Vejo a tradução como questão performática", finalizou Guilherme.

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