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Resquícios do apartheid na escrita de dois autores premiados

Um curto ensaio de George Orwell, “Por que escrevo”, publicado em 1946, é a razão do nome da mesa 11 da Flip, que encerrou a sexta-feira no Auditório da Matriz. O que está por trás do ato da escrita foi o tema em torno do qual se desenrolou a conversa entre a sul-africana Deborah Levy e o norte-americano William Finnegan, mediados por Ángel Gurría-Quintana.


O texto de Orwell estabelecia quatro motivações principais: histórica, política, o entusiasmo e o puro egotismo. A partir disso, Deborah escreveu um ensaio em resposta a Orwell, dando uma perspectiva feminina aos pensamentos do escritor. E por que trazer um olhar feminino à questão? “É muito importante pegar qualquer pessoa que está na margem e trazê-la para o centro. Mas estava pensando no caso do egotismo propriamente.” Sua preocupação se explica porque, aos 15 anos, inspirada pelos existencialistas e suas discussões e produções em cafés, criava seus textos num café londrino rodeada por porções de bacon e sanduíches. E então lhe veio à cabeça: “O que é ser uma jovem num café cheio de homens, escrevendo sem parar, nos guardanapos? Ninguém fala com você, ou interrompe. A caneta tinha o poder, criava uma bolha de espaço em torno de mim”.


Para ela, uma mulher escritora não pode sentir sua vida de maneira muito clara. “Se ela fizer isso, vai escrever com raiva enquanto deveria escrever com calma”, parafraseou Virginia Woolf. “Ela foi uma grande escritora e disse que, se você escreve só a partir da raiva, você apenas grita na página, e perde nuances e complexidade. Isso é parcialmente verdade. Mas acredito na raiva como motivação para a escrita.” Nascida na África do Sul, ela saiu do país aos 9 anos e foi para Londres com a família, após o pai ficar detido por quatro anos como preso político. Membro do Congresso Nacional Africano, partido de Nelson Mandela, ilegal à época, ele ensinava crianças negras a ler e escrever, algo proibido no regime do apartheid. “Fiquei muda durante um ano, não conseguia falar na escola. Uma professora disse: 'por que você não anota seus pensamentos?' Descobri que eram barulhentos. Tive que aprender a interromper, a falar em voz alta, depois cada vez mais alto, e depois propriamente não tão alto.”


Escritor e jornalista de política na The New Yorker, William também mudou de vida em um incidente que se passou na África do Sul. Professor em uma comunidade de crianças negras, durante o apartheid, os estudantes fizeram uma greve no país todo, que o Estado reprimiu de maneira violenta. “Muitos estudantes e colegas foram para a cadeia, alguns assassinados. Foi uma experiência de política tão direta, e eu os admirava tanto, que eu perdi minha identidade como escritor de ficção. De repente aquilo tudo me pareceu irrelevante, tolo. E ali comecei a fazer jornalismo político. Voltei aos Estados Unidos e levei a sério escrever sobre política e a questão do poder.”


Também correspondente de guerra, William é autor de romances, memórias, poesia e da obra recém-lançada no Brasil Dias bárbaros – Uma vida no surfe. Temendo perder a credibilidade no jornalismo por causa da fama que os surfistas têm nos Estados Unidos de não serem dados “a discutir política”, guardou para si o segredo de surfar por muitos anos, até a publicação da obra. Crescido no Havaí, e em meio a uma rotina turbulenta como jornalista, disse que encontrou no esporte uma forma de imersão no belo. “Ao escrever sobre surfe não tendo a endeusar, a dourar a pílula. Não existe a onda perfeita, é experiência de imersão na beleza.”

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