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Obras cruzam memória materna com relatos de guerra

Duas autoras que trabalham com memória. Mais especificamente, com a memória da mãe. Mais especificamente com a memória da mãe em contextos históricos marcados pela guerra e pelo extremismo – a Shoah, no caso de Noemi Jaffe, e o genocídio de Ruanda, tema de Scholastique Mukasonga. As duas autoras falaram das possibilidades da escrita como testemunho – lembrar para não esquecer, lembrar para redimir a memória; escrever por necessidade, por dever ou por ambos.


Mediadora da mesa, Anabela Mota Ribeiro trouxe fragmentos de Machado de Assis, Primo Levi, Chico Buarque e outros autores para conduzir a conversa. Logo no início do encontro, Noemi cantou uma canção em húngaro e Scholastique relembrou os pés de sua mãe, que dão título a seu livro, “A mulher de pés descalços”, lançado recentemente pela Nós.


“Tudo o que fazia minha mãe era por seus pés [...] Hoje em dia, quando escrevo, penso que meu pé pode ver, que meus pés me fizeram deixar Ruanda e assumir a missão complexa de ser a sobrevivente e a dona da memória daqueles que já não estão”, contou a autora de origem tutsi, cuja mãe e as irmãs foram mortas no genocídio de Ruanda em 1994, promovido pelos hutus.


Trata-se, no entanto, de um caminho cheio de desafios, pois, como lembrou Noemi, falar sobre a tragédia do outro é muito difícil. “A linguagem nunca chega lá. E a tragédia de quem conta é: 'eu preciso dizer, mas é impossível dizer'”. Entre trechos de seu livro, a autora relembrou episódios como o de sua mãe prisioneira de campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. “Eu, como escritora, preciso lembrar o que ela precisou esquecer.”


A consideração ressoa outra fala de Scholastique: “O genocídio de Ruanda fez de mim escritora. A escrita foi um modo de dar uma sepultura aos meus, tirá-los da vala comum e construir uma sepultura de palavras, uma tumba de papel”. O livro, ela conta, não apenas retoma a figura da mãe, mas também recupera a Ruanda de sua memória: festas do vilarejo, dias de casamento e de fabricação de cerveja.

 

Entre relatos, histórias e canções de suas mães, não foram poucos os rostos emocionados na plateia na mesa que encerrou a quinta-feira.

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