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O potencial formador da literatura infantil

Há muitas maneiras de se ler o mundo, tanto pelos livros quantos pelas experiências orais, a fruição por meio da ilustração e de experiências em nós. Ao redor desses tópicos aconteceu a mesa “Ler o mundo”, do Programa educativo Território Flip/Flipinha, no Auditório da Praça. Os autores e professores Edimilson de Almeida Pereira e Prisca Agustoni, sob mediação de Susana Ventura, teceram conexões sobre literatura infantil, maneiras possíveis de leitura e formação de público leitor.


A mesa foi nomeada a partir de uma frase de Maria Valéria Rezende, dita em outra edição da Flip: “Aprendemos a ler para ler o mundo”. Ao que comentou Susana: “Dá para ver que a frase contém Paulo Freire em sua visão”, em menção ao educador e pensador brasileiro (1921-1997). 


Ao falar sobre a obra “O mundo começa na cabeça”, Prisca – que nasceu na Suíça e mora há anos no Brasil, hoje professora na Universidade Federal de Juiz de Fora – falou de sua relação com a América Latina e com o Brasil, e a maneira como o brasileiro encara a diversidades de cabelo. “Trabalhei em Cuba, investiguei a diáspora dos negros durante a escravidão. Desde o início desse trabalho, que tem mais de vinte anos, ficou claro para mim, como europeia branca, como alguns discursos dessa herança colonialista são herdados”. De maneira lúdica, a autora quis trabalhar os preconceitos que envolvem a temática do cabelo, além de discutir o que de fato nasce na cabeça das pessoas: suas ideias e perspectivas. “Desde o início queria trabalhar de forma tênue temas que tentem reverter esse olhar. E fazer isso desde as bases, com as crianças.”

Ao falar da relação do autor com o ilustrador, especialmente na produção da literatura infantil, Edimilson e Prisca concordaram sobre a importância da imagem na construção e pontuação da narrativa. “Acredito fortemente que a apreensão do mundo, por uma criança, começa antes de ela ler com o alfabeto. Nesse sentido, acredito no impacto das imagens. O trabalho da ilustração não é apenas complementar.”


Edimilson então concordou que a criança faz múltiplas formas de leitura, e a infantil é também a própria expansão da literatura. “Quando imaginamos as crianças, as formas de leitura que elas fazem do mundo são muito maiores, não estão restritas ao ambiente do livro.”

Em um país desigual como o Brasil, Edimilson pontuou as dificuldades de acesso ao livro, e de como alguns alunos da rede pública inclusive encontram bibliotecas fechadas - e suas escolas às vezes interditadas por conta da violência urbana. “Lamentavelmente, as dificuldades do ensino público fazem com que os alunos não consigam ser leitores. Tem antes que comer, chegar à escola. Existe uma vasta camada de excluídos. Nosso esforço é, portanto, ainda maior, nosso compromisso com uma literatura honesta vai na direção de incluir esse campo de leitores à nossa esfera social. A literatura infantil é um dos núcleos instituintes da leitura no Brasil.”


Ainda pensando na conjuntura brasileira, Prisca comentou como esse é um país fortemente marcado por tradições orais, e refletiu: “Como estamos lendo o mundo? Será que o brasileiro desenvolveu outras maneiras de leitura?”.  

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