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O oprimido na linguagem do opressor: Lima e seu lado moderno

A inovação na escrita de Lima Barreto, a literatura voltada aos oprimidos e também a loucura foram temas essenciais da mesa “Moderno antes dos modernistas”, com Antonio Arnoni Prado (um dos pioneiros nos estudos sobre o escritor, já na década de 1970) e Luciana Hidalgo (jornalista e escritora, também estudiosa do Autor Homenageado), sob mediação de Rita Palmeira, no Auditório da Matriz.

 

O debate começou com o questionamento que deu nome ao encontro: Lima foi de fato moderno antes dos modernistas? Os integrantes da mesa defenderam a ideia de que a linguagem do escritor foi à época inovadora, porque pouco rebuscada e às vezes fragmentada. “Ele está preocupado com a linguagem, e é uma coisa muito antecipadora; quer colocar sua linguagem pessoal, e aí converge com as especulações inventivas do modernismo. Essa é uma atitude moderna”, disse Antonio. O autor juntava sua vivência a textos ficcionais, transitando pela autoficção: “Diria que o Lima foi o pioneiro do Brasil desse tipo de escrita”, afirmou Luciana.

 

A alma de flâneur, o fato de – apadrinhado pelo poderoso Visconde de Ouro Preto – ter estudado nas melhores escolas particulares e ter domínio completo da língua culta, apesar de sua vivência como homem negro, pobre, excluído; as duas internações como indigente em hospício, por conta de suas psicoses alcoólicas, se traduzem na escrita de Lima. O Autor Homenageado dizia-se casado com a literatura e dela tudo esperava, e usou-a como importante ferramenta para dar voz aos oprimidos: “Ele usou a língua do dominador para falar dos dominados”, contou Luciana.

 

“A particularidade maior do Lima – no sonho entre o agir e o escrever – é uma espécie de pré-consciência do fracasso. No olhar distante da classe dominada, ele não vê saída. Assim, experiencia uma literatura militante, e até certo espiritualismo. Ele queria que a literatura servisse para a união das pessoas”, pontuou Antonio. E completou: “Ele fala sobre o mistério da existência, a literatura como forma de harmonizar a vida dos homens”.

 

A dupla também comentou a relevância do Homenageado para os dias atuais, seu olhar sobre a corrupção, os bacharéis e privilegiados. “Vale ler Lima para que a gente tente melhorar um pouco o nosso Brasil, que está, realmente, cheio de conflitos. Além de conhecer profundamente a história do país, a gente se diverte com a leitura”, comentou Luciana. Antonio, na sequência, ressaltou a ironia do escritor, que continha traços de amargura. “É uma coisa muito difícil para a gente e para ele mesmo. Um riso trágico”, encerrou Antonio.

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