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Na contracorrente da autoficção, autores retomam formas tradicionais

Enquanto a literatura contemporânea tem na autoficção uma de suas principais correntes, dois autores escolhem revisitar o caminho clássico e apostar na força de grandes enredos tradicionais. Reunidos na mesa “Mar de histórias”, o islandês Sjón e o carioca Alberto Mussa traçaram uma ponte entre o Rio e Reykjavík que teve até cantoria. Quando a mediadora Paula Scarpin mencionou que ambos viviam “separados pelo Atlântico”, Sjón fez questão de lembrar que, para quem vive numa ilha, o oceano não é aquele que separa, mas o que conecta; portanto Mussa e ele vivem “unidos” pelo mar.


O autor nórdico pontuou que nunca sentiu necessidade de contar a própria história: “É possível ser bastante autobiográfico sem falar de si mesmo no texto. Nos meus livros revelo muito a meu respeito pelo tema que escolho, pela maneira que uso a linguagem [...] A máscara fala mais de uma pessoa do que o rosto que está por trás dela”.


No mesmo sentido, Mussa enfatizou a importância que dá à referência espacial, procurando sempre recriar a cidade do Rio de Janeiro em épocas mais remotas. “Faço uma imersão para que a paisagem, o cenário que vou reproduzir entre primeiro na minha cabeça. Só então consigo colocar os personagens para se moverem nesse palco.”


Em comum, os dois autores carregam também a grande importância conferida à mitologia – via tradição oral nórdica no caso de Sjón, e Mussa por meio da matriz afro-brasileira. “Não sou eu que uso os mitos. São os mitos que me usam para se recontar. Parece haver um impulso no ser humano de continuar contando sempre as mesmas histórias”, comentou Sjón. Ele relembrou seu “encontro” com Possêidon durante uma visita a Atenas – esteve no país para a abertura dos Jogos Olímpicos de 2004, quando Bjork cantou uma letra de sua autoria.


"A mitologia para mim é quase que a literatura propriamente dita. Todos os grandes temas de que a literatura trata, a mitologia já tratava. O amor, a violência, a vingança [...] essa matéria prima que é a natureza humana", complementou Mussa.


A conversa incluiu temas como a tradução (“é muito impressionante que os livros e as histórias possam viajar grandes distâncias no tempo e no espaço”, disse Sjón, lembrando que sua língua é falada apenas por 350 mil pessoas) e a influência de Jorge Luis Borges sobre um e outro. Entusiasta da Islândia – esteve três vezes no país –, o escritor argentino incorporou os mitos e sagas da ilha à sua literatura.


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