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Lázaro Ramos e Joana Henriques voltam às origens do racismo

Uma espécie de catarse tomou conta do Auditório da Praça na manhã desta sexta-feira. Dispostos a abordar diretamente o tema do racismo, o ator Lázaro Ramos e a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques conversaram sobre privilégio, exclusão, liberdade e afeto, e foram amplamente aplaudidos por um público multirracial.


"Tô muito feliz de estar vendo essa plateia aqui cheia de brancos. Falar de raça e de preconceito às vezes parece que é uma coisa só de negros, mas é um problema de todos. É ruim para todos. A gente mata possíveis grandes amores”, disse Lázaro, pedindo para que todos pensem melhor antes de chamar ador do outro – negros e mulheres, por exemplo – de “mimimi”. “É muito difícil uma pessoa falar da própria dor. O que é visto como mimimi em geral é choro mesmo."

 

Autor do recém-lançado “Na minha pele”, o ator falou ainda sobre a infância protegida numa pequena ilha na Bahia, a entrada no Bando do Teatro Olodum e de como a arte o ajudou a pensar em novas possibilidades narrativas. Em diferentes momentos de sua fala, frisou a importância do afeto nas relações: “A gente [tem de] saber que afetamos e podemos ser afetados pelo outro. Precisamos recuperar a capacidade de espalhar afeto e de ser afetado”.

 

Jornalista portuguesa, Joana viajou para cinco ex-colônias portuguesas na África em busca das cicatrizes que permanecem. “O colonialismo português não foi um colonialismo bom, como ainda hoje se quer acreditar. A história enfatizada é a história do descobrimento [...] Não temos um museu da escravidão, não temos um museu do colonialismo, não temos memoriais”, disse, citando ainda a lei da nacionalidade que vigora no país: “Quem nasce em Portugal não é português, mas quem é neto de portugueses pode ter a nacionalidade [...] Em termos de política pública, o governo português coloca a questão racial no chapéu da imigração, o que parece dizer que os portugueses são brancos e ponto final”.

 

A maior emoção da mesa ainda estava por vir. No momento das perguntas do público, a professora negra Diva Guimarães, de 77 anos, deu um testemunho profundamente emocionado. Com o microfone na mão, passou cerca de dez minutos contando sobre a infância na região sul – a mãe que lavava roupas em troca de cadernos e lápis para que a filha pudesse estudar, as histórias absurdas contadas por freiras do colégio para “justificar” as diferenças entre negros e brancos, o preconceito enfrentado na cidade de Curitiba, tida por muitos como mais “civilizada” porque mais “europeia”. Saídas em voz engasgada, as palavras de Diva comoveram também os autores convidados. “Quer matar a gente do coração, professora?”, resumiu Lázaro. Para Joana, poder ouvi-la foi nada “mais que uma honra”.

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