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Escritores resistiram a experiências de prisão por meio da palavra

"Na prisão não temos com quem conversar, a escrita era meu desabafo", afirmou o autor angolano Luaty Beirão, preso pela polícia durante um encontro em grupo que discutia a obra “Da ditadura à democracia”, de Gene Sharp. Foi acusado de atentar contra o chefe de Estado, de associação criminosa e de agir premeditadamente contra o país. O tema do confinamento e da escrita atravessou a mesa “Kanguei no maiki – Peguei no microfone”, que reuniu também a premiada escritora e freira da Congregação de Nossa Senhora Maria Valéria Rezende, no Auditório da Matriz.


Abrindo a mesa com uma intervenção contundente, parte da série “Fruto estranho”, a pernambucana Adelaide Ivánova relatou histórias de feminicídio, tanto recentes quanto do período da ditadura militar brasileira, numa escrita que tem como base o pensamento de Susan Sontag. Adelaide leu um poema de sua autoria, somado ao depoimento de Dora Lara Barcelos, retirado do documentário Retratos de identificação, assinado por Anita Leandro.

Além de escritores, Maria Valéria e Luaty são ativistas. Durante a ditadura, Maria Valéria ajudava presos políticos, entre eles o escritor e frei dominicano Frei Betto, visitando semanalmente a Prisão Tiradentes, entre 1968 e 1971. Os presos conquistaram o direito de fazer artesanato e produziram um cinto com o qual, sem vigilância, a freira conseguia levar cartas que distribuía aos familiares dos detidos. Assim nasceu inclusive um livro de Frei Betto. “A certa altura, estava metida em esconder pessoas, arrumar passaporte, salvar gente.” Precisou sair do Brasil e foi viver na Europa, aportando na Itália.


Quando quis retornar, precisou ir aos Estados Unidos, passar pelo México, entrar no Brasil por Manaus; e só parou sua caminhada no sertão de Pernambuco. A partir de 1973, começou a escrever em sua casa de taipa, para enfrentar a solidão e ter o que pudesse ler. Reuniu alguns desses textos em livro, e escreveu outras múltiplas obras, permeadas por própria vivência, inclusive a de confinamento. Além disso, a escritora trabalhou com alfabetização em presídios, zonas rurais e periferias urbanas, chegando a criar cartilhas pedagógicas.


Músico desde 1994, Luaty sentiu que sua música era insuficiente para emitir mensagens críticas, por não terem aceitação em rádios e outros canais. “Percebi que não produzia a transformação que um jovem anseia.” Sobre a ocasião em que foi preso, em uma megaoperação policial, Luaty contou: “Em 2011, havia também esse sonho de que podíamos também nós terminar o longevo mandato do presidente José Eduardo dos Santos, que à época durava de 32 anos”. Agora o político decidiu se aposentar e novas eleições vão ocorrer em Angola. 


“Estamos vigiando o processo eleitoral. Angola é supostamente uma democracia, mas não consigo pôr meu livro a ler em Luanda, foi embargado pela alfândega.” O mesmo ocorreu com um CD de Luaty, porque o consideraram subversivo.

Questionado pela mediadora, o escritor relatou também assuntos identitários, e como lida com a questão de ser um homem rico e branco em meio a uma sociedade que ele próprio luta para democratizar. “Desde os 17 anos, passei a pensar nisso. Sei que sou responsável, que preciso me libertar e fazer algo. O que produzo me dá um conforto de pensar que estou fazendo o que me é humanamente possível.”

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