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Escritores renovam a tradição americana com seus sotaques

Qual é o repertório de piadas, dilemas e referências de linguagem que alimenta a literatura norte-americana contemporânea? Colecionadores de prêmios, os escritores Marlon James, jamaicano radicado em Minnesota, e Paul Beatty, californiano residente em Nova York, encerraram o sábado da 15ª Flip com um debate especialmente frutífero.


Juntos no Auditório da Matriz, os dois autores negros percorreram influências musicais, televisivas e literárias – de Led Zeppelin a Gay Talese, de Os Batutinhas a Mark Twain – para traçar um panorama dos dias atuais, incluindo-se aí a questão racial.  “Muitos jamaicanos pensam que fui ao colégio no exterior porque falo como falo. Mas falo assim porque assisti a muita TV”, cravou Marlon logo na abertura do encontro. “Acho que o inglês standart não existe. Os britânicos pensam que o inglês britânico é o padrão, mas o inglês britânico é horrível”, ironizou.

“Apontamos as coisas e dizemos: é uma contradição”, disparou Beatty, o primeiro estadunidense a vencer o Man Booker Prize. “Eu cresci em Santa Monica, meu melhor amigo era um judeu e nós éramos fãs dos nazistas. O pai dele inclusive incentivava quando construíamos aviões e tanques alemães. Ninguém nos disse ‘Isso é uma contradição’. Estávamos obcecados e sabíamos do que se tratava, era um fetiche.”

A contradição, para Marlon, é outra: “Charles Dickens defendeu manifestações que mataram mais de 400 jamaicanos. Era um filho da mãe. Ao mesmo tempo, poucos escritores tiveram uma influência tão grande na forma como estruturo meus livros”.

Enquanto Beatty disse rejeitar o rótulo de “sátira/satírico” – “o termo é gasto e se usa para qualquer coisa” –, Marlon afirma ser especialmente interessado pela autenticidade. (“Não posso escrever um gibi de super-heróis jamaicanos [...] Sou um cara do subúrbio. Minha briga era Michael Jackson versus Prince.”). Entre idas e vindas, a porção final da mesa dedicou-se a pensar sobre uma espécie de demanda e expectativa por livros “sobre raça”, “sobre mulheres”, vinda principalmente da academia norte-americana.


“As pessoas me perguntam: alguém não preto poderia ter escrito seu livro? E eu respondo: nenhum outro ser humano poderia ter escrito meu livro”, arrematou Beatty, incisivo. Na leitura de O Vendido, chamou a atenção o trecho que se refere a uma cadeira de estofado grosso que "assim como os Estados Unidos, não é tão confortável quanto parece".

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