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Comunidades tradicionais em pauta na mesa Zé Kleber

"A gente está aqui para viver nesta terra, não para morrer", afirmou Laura Maria dos Santos, arte-educadora e militante pela educação e pela cultura da comunidade quilombola Campinho da Independência, de Paraty. Nesta quinta-feira foi inaugurada a programação Território Flip/Flipinha, na já sedimentada mesa Zé Kleber, dessa vez voltada aos direitos dos povos tradicionais. Também estavam na mesa Álvaro Tukano, escritor e pensador indígena do Alto Rio Negro, e Ivanildes Kerexu Pereira da Silva, da aldeia Guarani Mbya Itaxi e ativista pelo direito das mulheres, das crianças e dos indígenas. Coordenadora da ONG Médicos Sem Fronteiras, Claudia Antunes mediou a conversa, que reuniu discussões sobre direito à terra, educação dos povos tradicionais e resistência.


Ao abrir a mesa, a diretora do Programa Educativo, Belita Costa Cermelli, informou que nesta edição houve plena integração entre as discussões do Território Flip/Flipinha e o Programa principal. E acrescentou: "Neste ano, nos esforçamos para que as atividades incluam todas as gerações, elas foram pensadas para públicos de todas as idades". 


Curadora da Flip, Joselia Aguiar fez uma introdução à mesa "Aldeia". "Este encontro traz a sabedoria ancestral de Paraty, uma resistência feminista, com mulheres líderes de comunidades tradicionais e um pensador histórico.”


Também representante do Fórum das Comunidades Tradicionais, Laura contou que o quilombo em que vive é composto por mais de 120 famílias, e que uma das preocupações centrais é manter viva a herança cultural e identitária de seus antepassados. Além disso, contou que há mais de 5 mil comunidades quilombolas no Brasil e apenas 2 mil delas reconhecidas pelo Estado. "O que está ocorrendo no Rio Pequeno [onde vive] acontece no Brasil há 517 anos, se mata gente por causa de terra neste país. Em Paraty não é diferente." E reforçou: a cultura é um bem de todos.


Na sequência, Ivanildes pontuou a importância do coletivo e da proximidade à natureza, condição  fortemente conectada ao povo Guarani. "A convivência sempre foi fundamental para o povo indígena. Entre os Guarani, o conhecimento é passado do pajé de geração em geração. A aldeia é o local onde tudo acontece, é o espaço que precisamos preservar - temos de estar ali para garanti-lo”. 


Após afirmar que o Brasil possui 314 povos indígenas, Álvaro reforçou a importância do direito à terra demarcada, sob muitos aplausos. "A demarcação tem que ser tratada com carinho, e não o índio ser tratado como invasor.” Autor de O mundo Tukano antes dos brancos, contou que sua obra foi escrita para descolonizar e fornecer informações não estereotipadas sobre os povos indígenas.


Ivanildes contou que na comunidade Guarani, além do pajé e do coletivo cuidarem da educação das crianças, elas aprendem português a partir do terceiro ano. Álvaro complementou: "Sabemos falar português para sobreviver, e queremos colocar nossos filhos nas universidades para falar de nossas culturas". Laura ressaltou que somos todos educadores e que a educação é transformadora: “Está nas mãos da sociedade civil fazê-la revolucionária”.  


A mesa foi encerrada com Álvaro realizando um cântico-ritual, em que todos se deram as mãos, inclusive na plateia, em meio a uma celebração à diversidade e à união dos povos.

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