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Às margens do Rio: os subúrbios de Lima Barreto

O conceito de subúrbio, inspiração transversal para a curadoria da 15ª Flip, ocupou posição central no encontro entre Beatriz Resende e Luiz Antonio Simas. No Auditório da Matriz, os pesquisadores – ela, especializada em Lima Barreto, ampla conhecedora da história do Rio; ele, especializado em história do Rio, amplo conhecedor de Lima Barreto – debruçaram-se sobre a antiga capital federal para pensar os bairros nos quais, como apontou Simas, “o Cristo Redentor fica de costas”.

 

Mas o subúrbio, destacam, está longe de ser uniforme. Há classes médias altas, classes médias baixas, classes baixas — diferentes configurações estão instaladas ali. Lima, no entanto, teria sido o primeiro a incluir de fato essa dimensão da cidade em sua literatura. “Policarpo mora em São Januário, em São Cristóvão. É um subúrbio mais elegante, tanto que ali moram militares reformados”, mencionou Beatriz.

 

Recuperando seus estudos sobre o samba carioca, Simas destacou o fato de que os cinco lugares mais emblemáticos da história do ritmo tenham desaparecido. “É uma cidade que parece propensa à destruição de seus lugares de memória”. Citando a abordagem da mídia nos dias atuais, o pesquisador destacou também o fato de que, embora ele e a maior parte da população do Rio vivam na Zona Norte, os artigos insistem em expressões como “Vale a pena atravessar o túnel para ver [tal atração/tal restaurante etc]” quando se referem a atividades da região. 

 

“Se eu atravessar o túnel, caio afogado na Lagoa Rodrigo de Freitas”, ironizou.

 

O debate, no entanto, não foi feito só de críticas: “O Rio tem uma tolerância que é difícil achar em outra cidade. Uma tolerância com os gêneros, com os costumes...”, definiu Beatriz. “Não tô dizendo que as coisas estão boas porque elas estão péssimas. Mas não estou disposta a abrir mão desse Rio de Janeiro da tolerância, assim como o Lima não abriu.”

 

Antes da sessão, a poeta e tradutora Prisca Augustoni declamou poemas em diferentes idiomas, como parte da série “Fruto Estranho”. Entre os belos versos da intervenção, "Levo nas línguas as pátrias como os peixes. Escorregando".

 

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