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A verdade posta à prova por dois expoentes da autoficção

Não é apenas a sonoridade dos sobrenomes que Jacques Fux e Julián Fuks compartilham. Suas práticas literárias guardam parentesco ao atenuar as fronteiras entre ficção e não ficção e ao misturar, cada uma a seu modo, memória e invenção. Reunidos na tarde de quinta-feira no Auditório da Matriz, os dois autores conduziram uma conversa em torno das motivações e desafios da escrita, num encontro carregado de sutilezas e auto-ironia.


Autor do premiado “A Resistência”, Julián contou como apostou na sinceridade da escrita para abordar um tema especialmente delicado – a adoção de seu irmão e a relação com os pais – a partir da memória que lhe foi transmitida. Também apontou os impactos que seu livro, depois de publicado, causou em relações reais, como se a ficção viesse a atravessar a realidade. “O livro foi escrito em parte para qualquer leitor, em parte para eles, meus pais, meu irmão [...] Não me interessa nunca a postura perigosa e niilista de romper com tudo em nome da literatura. Prefiro falar do que a gente tem dificuldade de falar. Não é algo agressivo; é, ao contrário, um gesto de aproximação.”


Jacques abriu sua fala questionando o próprio termo “autoficção” e os procedimentos classificatórios. Para tanto, leu a famosa “Classificação Chinesa”, de Jorge L. Borges. Entre episódios e piadas, contou sobre os procedimentos de escrita de seu livro “Brochadas”, envolvendo trocas de cartas com ex-namoradas. “Não vejo a ficção como o contrário da verdade. Ela é um complemento da verdade que você lembra, da verdade que você inventa.”


Julián antecipou o projeto de seu próximo livro, “A Ocupação”, desenvolvido a partir de uma residência artística numa ocupação do centro de São Paulo. “Junto com ‘A Resistência’, formará um par de livros em que o lema “ocupar e resistir” ganha literariamente destaque. Vivemos um momento que pede uma tomada de posição da literatura e, portanto, uma literatura ocupada.”

 

Por sua vez, Jacques revelou dois de seus projetos futuros: um livro de literatura e matemática para crianças e um outro, para adultos, explorando disputas entre escritores famosos “que entram como personagens de uma grande cadeia [de acontecimentos].” Ao longo da mesa, os dois também mostraram fotos de família e refletiram sobre o caráter de testemunho/documento/narrativa das imagens.

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