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A potência da realidade como matéria-prima da literatura

No sábado à noite, o Auditório da Matriz foi palco do encontro entre a jornalista argentina Leila Guerriero e o escritor francês Patrick Deville, sob mediação do editor Paulo Roberto Pires. Criação, partitura, realidade e ficção pautaram o debate durante a mesa “Trótski nos trópicos”.

 

“Sinto que a realidade me prende, sou muito mais leitora de ficção, mas, para mim, o real é o que está”, afirmou Leila – voltada ao jornalismo narrativo –, ao comentar sua predileção pela escrita dos fatos. Ela lança em Paraty a obra Uma história simples, sobre um dançarino de malambo, estilo folclórico da Argentina que a própria repórter desconhecia. Soube pelos jornais de uma competição do gênero, que se passaria na cidade de Córdoba, e partiu em busca de uma história, curiosa pela associação da dança ao esporte. Após inúmeras apresentações de bailarinos, viu subir ao palco alguém que a fez esquecer de tudo que havia visto até ali: “Deve parecer com estar apaixonado”, disse, aos risos. Era Rodolfo González Alcántara, que se tornaria o personagem de seu livro. Os meandros da relação entre eles, o encontro com o narrador em primeira pessoa (ela mesma), a angústia de não saber para onde caminhava sua investigação – tudo foi relatado por Leila.

 

A jornalista explorou também os bastidores da profissão e comentou, com graça, as frustrações pelas quais passam muitas vezes os repórteres em busca de uma narrativa consistente. “A gente se submete a cada coisa...tem que lutar contra o cansaço físico e o tédio.” Aficcionada como é por contar a realidade, diz ver na forma e na estrutura das frases possibilidades de criação, de subjetividade.

 

Na obra Viva!, que lança na Flip, Patrick trata do México dos anos 1920 e 1930 e investiga a morte de Trótski, além de seu encontro com o jovem escritor Malcolm Lowry.  Este chegara ao México em 1937 e teria papel decisivo nos momentos finais do líder russo. Para Patrick, suas escolhas como escritor não se dão pelos personagens, mas sim pelo lugar. Ao determinar seu recorte de tempo e espaço, parte para pesquisas aprofundadas e constrói o que chama de romance de não ficção. “Há um respeito total pela realidade, e a literatura sempre jogou com os limites do real. Sou incapaz de colocar na boca de alguém algo que não foi dito se não tenho prova de que foi dito. [Para outras obras], já fiz entrevistas com militares franceses no Mali, na Síria, na África Central.”

 

Sobre processo criativo, Leila contou preferir lidar com o acaso. “A gente chega em campo como repórter e não sabe o que vai acontecer. O segredo é contar da forma mais interessante, sentir as palavras, procurá-las.” Patrick fez uma associação com música para descrever o ato da escrita: “Acho muito próximo de uma partitura. Nós não podemos mudar um episódio, como a morte de Trótski, pois todos a conhecem. Mas em cima dos fatos, tocamos nosso violino, tocamos a partitura.”

 

André Vallias participou da série “Frutos estranho”, que abriu a mesa com a videoarte “Moteto”, combinando sons e imagens de textos de Lima Barreto a vinte pseudônimos do Autor Homenageado. Além disso, o vídeo fazia menção à prisão de Rafael Braga, detido durante as manifestações de junho de 2013, com os dizeres “preso porque é pobre”, algo que Vallias reforçou na fala que precedeu a exibição do vídeo.

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