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A história do Brasil entre a realidade e a ficção

Como os procedimentos de historiadores e ficcionistas costuram-se para recontar a história brasileira? O que a memória de personagens singulares como Gregório de Matos ou Xica da Silva pode nos revelar? Essas e outras questões abriram o sábado no Auditório da Matriz e deram a tônica do encontro entre Ana Miranda, autora de romances históricos e biografias, e o historiador João José Reis.

Com uma trajetória pessoal que mistura vivências em Fortaleza, Rio, Brasília – chegou, inclusive, a viver um ano em Paraty – Ana Miranda contou como a ideia de exílio permeia sua prática e de como o sonho tem uma dimensão importante em seu trabalho.

                      

“O que era ficção e o que era realidade não era claro para mim. Durante muitos anos eu tive pesadelos, pensava se podia tratar a realidade assim. Eu vivia numa espécie de limbo”, contou a autora. “Na verdade, tudo o que eu estava fazendo era ficção e tudo vinha de uma realidade, fosse uma realidade pessoal, fosse da história brasileira. Tudo vinha da memória, da imaginação, dos livros.”


Referência internacional em estudos sobre escravidão, João desenvolveu uma pesquisa em que a antropologia exerce um papel central. “A Bahia foi o local das Américas que mais recebeu escravos muçulmanos [...] O que descobri e enfatizei é uma dimensão étnica vinculada a esses africanos iorubás”. Em seu trabalho, contou, a imaginação entra apenas no sentido de tentar preencher as lacunas deixadas pela documentação. “Eu não fui atrás dos meus personagens. Eu estava fazendo pesquisa nos arquivos e eles emergiram dos arquivos dizendo: ‘Ó, eu estou aqui. Escreva alguma coisa sobre mim’. Deixaram pistas para que eu pudesse biografá-los, apesar de serem pistas cheias de falhas.”


Falando sobre o Brasil atual -- "Ficção gótica" --, nas palavras de Ana, João ressaltou a importância de inserir estudos africanos no currículo do ensino de base e criticou a reforma trabalhista empreendida pelo atual governo. “Nesta semana foram mortos dois quilombolas na Bahia. Há um massacre aos índios, aos trabalhadores sem terra [...] São  populações que estão às margens inclusive da mídia. Não é ficção. Esqueçam a ficção. O que estamos vivendo está muito bem documentado, inclusive para os historiadores do futuro.”

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