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A escrevivência de Conceição Evaristo e a visibilidade negra na literatura

“Quando o negro se sente representado em um festival, quebra o estereótipo de que negro não lê, não comparece a eventos literários”: assim começou Conceição Evaristo – premiada escritora, vencedora de um Jabuti, além de mestre e doutora em literatura e um dos principais nomes da memória negra brasileira. Intitulada “Amadas”, a mesa trouxe ao palco da Flip uma conversa entre Conceição e a também escritora Ana Maria Gonçalves, que dá palestras sobre a questão racial, tema principal da conversa no Auditório da Matriz, na penúltima mesa da 15ª edição.


Conceição falou da importância de escritoras negras ocuparem mais e mais espaços de visibilidade, e disse que a conquista resulta de uma força coletiva, especialmente das mulheres. Comentou a forma como os negros são retratados na literatura - de “maneira rasa” - e sobre como as mulheres negras não possuem “fecundidade” nos livros. Ao explicar seu ponto, Conceição comentou que, na mitologia cristã, Eva é a mulher que representa a perdição da humanidade, enquanto Nossa Senhora simboliza a salvação, dada por meio da maternidade. “Se nós vivemos sob a orientação desse mito, me pergunto se a negação da mulher negra fecundante na literatura brasileira não é uma negação das matrizes africanas em nossa nacionalidade.”


Conceição recorreu a mais um simbolismo religioso para contextualizar questões de silenciamento do povo negro. Devota de Anastácia, cultuada como santa nas religiões afro-brasileiras, explica a imagem da negra escrava amordaçada. “Aquela máscara de Anastácia simboliza o silêncio. Mas acho que reverbera em grito. Nós, o povo dominado, aprendemos a falar por trás da máscara, e estilhaçamos a máscara. A grande simbologia disso é estar aqui rompendo ela, na Flip.” A escritora fez um agradecimento especial à curadora, Joselia Aguiar, por sua sensibilidade em trazer a temática negra para o centro do debate.


Atravessada por falas de afeto e resistência, Ana Maria perguntou a Conceição como amar em tempos tão difíceis, especialmente para os negros. “Tem um projeto histórico de nos apartarmos uns dos outros. […] Os laços afetivos nos permitem sobreviver nessa sociedade. Amamos e nos damos, nos damos e amamos.”

Em dado momento, pontuou a dificuldade das mulheres negras em publicar livros. “Nunca nos dão a competência da arte literária. Há um imaginário de que dançamos, cozinhamos, cuidamos bem de uma casa. Somos sim capazes de lavar, de passar, mas também de dar aula, de exercer a medicina, de sermos políticas, de sermos professoras, de sermos escritoras”, ressaltou ela, que inclusive trabalhou como educadora no bairro do Caju (RJ), na década de 1970.


Termo criado por Conceição, escrevivências define a escrita marcada por suas experiências como mulher negra. E acrescentou: "Quero escrever um texto que se aproxime o máximo possível de uma linguagem oralizada, aproximá-lo da língua viva do cotidiano".


Por fim, falou de suas referências literárias e musicais, citou Nina Simone, Elza Soares, Angela Davis e Carolina Maria de Jesus, conhecida sobretudo por Quarto de despejo. Conceição associou Carolina a Lima Barreto e relatou que a crítica lê a obra da autora principalmente pelo viés da pobreza e da exclusão. “Isso é esvaziar sua humanidade, suas angústias, para além da pele e da carência material das mulheres negras. Carolina me lembra muito Lima Barreto, aquela tristeza e a certeza de sua potencialidade, que não conseguia ser valorizada. Não tiveram o lugar que era deles.”

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