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Com espírito da poesia marginal, vozes de protesto sublinham o sarau da Flip

“Não adianta ficar sério, paradinho, aqui é bagunça”, disse Roberta Estrela D’Alva, destaque na cena brasileira de poetry slam (batalha de poesia falada) e mestre de cerimônias do sarau da Flip, que ocorreu no dia de abertura da festa.

 

Sob curadoria de Estrela D’Alva, o sarau recebeu logo de início o poeta Italo Moriconi, que recitou trechos seus e da homenageada da edição Ana Cristina Cesar, destacando ecos de outros poetas em sua obra, como Mallarmé e Mário de Andrade. Em seguida, Roberta apresentou Sinhá levantando uma dúvida: “poeta ou poetisa?”. “Esqueça a poetisa. O feminino de poeta é paetê”, respondeu Sinhá, em verso.

 

A escritora e jornalista Gabriela Wiener leu dois poemas do livro Sexografias, e arrancou risadas da plateia com seu bom humor. Chacal, um dos destaques da noite, falou sobre a poesia marginal: “É poesia falada com toda a potência da voz e do corpo, mil anos represada pela palavra impressa. É a palavra viva”. O poeta também protestou contra o presidente em exercício Michel Temer e o deputado afastado Eduardo Cunha.

 

“Primeiramente, fora Temer”, falou Daniel Minchoni, poeta e criador do“menor slam do mundo”, seguido de uma apresentação bastante musical e lúdica. “Você já reparou como é rítmica e poética a fala cacofônica de um gago?”

Mel Duarte, com versos contra o racismo e o machismo, recitou “Menina melanina”, dedicada às mulheres negras. “Em pé, armado, foda-se, que seja. Pra mim é imponência. Porque cabelo de negro não é só resistente, é resistência.” A jovem poeta também fez um protesto contra a cultura do estupro: “É desprezível, e é preciso, sim, sempre reafirmar essa questão”.

 

Entre os poemas autorais recitados por Allan Jones destacou-se um inédito aludindo à seriedade do homem: “Um escritor muito sério,quando da leitura pública de um texto, terá a lei fundamental número um: não gesticulará; número dois: não afrouxará a fisionomia; e número três: não imitará um alce ou uma borboleta”.

Vice-campeão da Copa do Mundo de Slam de Poesia em 2014, Emerson Alcalde usou sua poesia para criticar a manipulação social: “Eu, como massa, preciso esfriar, pra depois ser usada. Senão acabo revoltada, e aí não dá”.

 

Artista de spoken word, a inglesa Kate Tempest pediu desculpas por não se comunicar em português: “Espero que vocês possam sentir meu coração, mesmo que não compreendam minha língua”, e depois declamou versos contundentes com viés humanista.


O sarau terminou com a apresentação do Esquina do Rap, grupo local de Paraty,que cantou sobre a realidade da juventude na cidade, recebido com muitos aplausos.

 

Alguns dos artistas apresentados na noite estão em outras atividades da festa, como Gabriela Wiener e Kate Tempest (programação principal), Allan Jones e Mel Duarte (FlipZona) e Italo Moriconi (Casa Sesc).

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