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Por dentro do cérebro humano

Suzana Herculano-Houzel tem quatro freezers e uma geladeira no trabalho, repletos da matéria-prima que transforma em sopa: cérebros. “Foi a maneira que criei para conseguir contar as células do cérebro humano – número que, para a minha surpresa, não se conhecia”, disse a neurocientista na mesa desta quinta (30) na Flip. Ela se reuniu em Paraty com o neurocirurgião Henry Marsh.


Suzana descobriu que o nosso cérebro concentra um número enorme de neurônios, explicação encontrada na alimentação. “Deveríamos passar nove horas e meia por dia, todo dia, procurando comida, comendo, e começando tudo de novo. Esquece isso de sentar para discutir como o cérebro funciona, poesia, literatura. Só pensaríamos em procurar comida”, disse. Na sequência, o neurocirurgião britânico Henry Marsh protestou, com bom humor: “As baleias-piloto, por exemplo, têm cérebros muito maiores, mas pode ser que elas não queiram escrever poesia. Pode ser que elas façam coisas que nós não entendemos”.

 

Para Suzana, a grande transformação no cérebro humano aconteceu graças à preparação dos alimentos. “Cortar, macerar, processar já aumentou enormemente a quantidade de calorias que conseguimos ingerir. Nunca mais vi minha cozinha da mesma maneira. Deveríamos trocar o nome da nossa espécie pra homo culinarius, é a única coisa que só a nossa espécie faz!”, disse, arrancando risadas e aplausos do público.

 

Quando perguntados sobre a possibilidade de se estender a vida humana, ambos se mostraram céticos. “Seria uma sociedade muito desigual, em que só oligarcas e banqueiros viveriam para sempre, e todo o resto morreria”, disse Henry, em tom jocoso.

Em seguida, Suzana respondeu à ideia de que neurocientistas acabam com a poesia da vida. “Acho o contrário. É uma coisa tão extraordinária olhar para aquela matéria e entender que são apenas moléculas, mas que, por causa de uma maneira muito particular como se organizam, se transformam em um ser capaz de pensar, ter opiniões sobre o universo, ser uma pessoa que desperta emoções, amor profundo.... Isso pra mim é a poesia suprema.”

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