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quarta dia

O animal no humano e na literatura

A mesa “O falcão e a fênix” juntou a escritora mineira Maria Esther Maciel à britânica Helen Macdonald para tratar da animalidade humana e de como a relação com animais pode ajudar em períodos de luto. Após a morte do pai, Macdonald adotou a falcoaria (arte de treinar falcões para caça) a fim de lidar com a perda. “Eu sabia que não conseguiria domar o luto, mas conseguiria domar um falcão. Então por que não fazer isso?”, contou. “Quando você está quebrado, pode se voltar à natureza que ela vai te curar. Ela vai ser um lugar de consolo”, disse, sobre seu relacionamento íntimo com a criatura selvagem.


Maria Esther Maciel então falou sobre a existência de diversas linguagens animais: “Elas se furtam de uma definição precisa, e a nossa linguagem humana é insuficiente para dar conta desses idiomas. Toda tentativa de apreensão deles não deixa de ser, também, um trabalho de tradução”.


Para ela, a literatura vem trazendo um novo olhar para o tema desde o século 20, por meio de escritores como Kafka, Jack London, Virginia Woolf, Guimarães Rosa, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, além das obras recentes de Eucanaã Ferraz,Nuno Ramos e Astrid Cabral.


Em seguida, falou de como sua cachorra, Lalinha, a conduziu à animalidade intrínseca. “Nossa convivência foi muito rica, exatamente porque a comunicação se efetuava por vias que não a linguagem verbal. A linguagem se inscrevia sobretudo no olhar.”

Roberto Kaz, que mediava a mesa, perguntou a Macdonald sobre o porquê da busca por um desafio tão grande em seu momento de dor. 


“Foi um desafio e uma distração. Queria encher completamente minha vida com algo que tirasse meu pensamento da morte de meu pai. Queria desaparecer. Foi um modo de obliterar os meus sentidos. Foi um modo de esquecer”, disse.


A crueldade da indústria com os animais também foi tema na mesa, quando Maria Esther repreendeu a aceleração cruel das fazendas industriais que tratam o animal como mera matéria-prima para produtos. “Todos que convivem com animais sabem muito bem que eles pensam de uma maneira diferente da nossa. Eles sentem, compreendem as coisas, eles sabem” disse,citando a personagem do cachorro Baleia, de Graciliano Ramos, em Vidas Secas,como exemplo na literatura.

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