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terceiro dia

Nem jaburu, nem vira-lata

Dois estrangeiros dedicados a pensar a civilização nos trópicos abriram a sexta-feira (1) na Flip. Kenneth Maxwell, historiador britânico, teve o primeiro encontro com o Brasil no cinema, com o filme "Orpheu Negro", de Marcel Camus. “Vi uma imagem do Rio de Janeiro maravilhoso e pensei: ‘acho que devo organizar minha vida para poder ver este lugar’”, contou. Benjamin Moser, escritor norte-americano, decidiu estudar o idioma português quando jovem, morando na Europa. “Pude entrar no Brasil rapidamente, foi um luxo. Oficialmente, eu estava estudando na PUC, mas, extraoficialmente, não estava fazendo nada [risos]. Então fui para o Nordeste, Amazônia, Centro-Oeste. Fui conhecer o Brasil.”

 

Lilia Moritz Schwarcz, historiadora e antropóloga que mediava a mesa, leu uma citação de Capistrano de Abreu sobre a tristeza no Brasil, em que compara o país ao jaburu – uma ave, segundo ele, triste. “O Brasil é muito mais triste do que aparenta”, respondeu Moser, referindo-se ao momento político do país: “Quando a estrutura da sociedade não é estável, quando as instituições são fracas, vem a depressão. E agora a gente está vivendo uma tristeza muito forte. O jaburu voltou”.

 

Aplaudido pelo público, Maxwell complementou: “Uma grande capacidade do brasileiro é a de mudar as palavras e as coisas ficarem na mesma. Como o novo governo interino, composto inteiramente de homens, vai ser uma renovação? É uma coisa inacreditável. Estamos num momento muito crítico”.

 

Moser então falou sobre como as crises e decepções fazem parte da vida brasileira. “Se você vir a historia mais ampla,enxergará que cada geração do Brasil sempre teve uma euforia, uma esperança, que foi decepcionada. Agora veio a ressaca, uma coisa muito penosa para os jovens. Não sei se é um consolo, mas há uma linha muito antiga de brasileiros decepcionados que vem antes de vocês”, disse.

 

Moser também abordou a autoestima nacional. “O brasileiro não deveria nem se sentir vira-lata, nem ostentar tanto as cores do Brasil, porque isso cansa. O Brasil faria bem não de ver monumentos, caricaturas do Ipiranga, Rio, Brasília, figuras de pedra, mas sim os indivíduos que compõem essa nação”, disse. “Nem jaburu, nem vira-lata”, completou Lilia Schwarcz.

 

Por fim, perguntado sobre a questão racial no Brasil, Moser lamentou a falta de representatividade dos negros. “Não devemos querer que o país seja diferente do passado. Mas, olhando o passado, podemos tomar decisões para o futuro e tentar remediar, de certa forma, a maneira de olharmos o Brasil”,disse. “Estou olhando aqui [para a plateia], não vejo um negro. Ops, um...dois, gente! Bem-vindos. Deu tudo certo”, ironizou.

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