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Entre lenços e inventos, o homem Santos-Dumont

O escritor holandês Arthur Japin e o artista multimídia Guto Lacaz abriram a tarde de sábado (2/7) com uma conversa sobre Alberto Santos-Dumont, cuja obra e vida ambos esmiuçaram – Arthur, em livro; Guto, em exposição.


“Para mim, é sempre o coração de uma pessoa que faz com que ela seja interessante. Em Santos-Dumont, vi um menino trágico, tímido, solitário, que não parecia se encaixar na sociedade”, disse Japin. É justamente o coração que dá início à jornada de O homem com asas (Editora Planeta), obra em que narra o roubo do coração de Santos-Dumont pelo médico legista encarregado de embalsamá-lo.


Lacaz, por sua vez, destacou os elementos artísticos que descobriu ao folhear o primeiro livro escrito pelo inventor. “Caiu a ficha de que ele não era só um inventor, mas nosso primeiro designer de produto. Comecei a ver a obra dele não só como inventos, mas como desenho, com qualidade, elegância, sutileza e plasticidade”,disse.


Perguntado pelo mediador Alexandre Vidal Porto sobre qual invenção faria para o Brasil, Lacaz disse que se sentia muito tocado com as pessoas em situação de rua. “Pensaria numas cápsulas, um trabalho de arquitetura minimalista, que desse conforto a eles, para que não ficassem no chão, mas subissem um pouquinho do nível da rua. A gente pensa que tem que ter coisas mirabolantes, e às vezes não é assim. Não são grandes coisas que envolvem tecnologia contemporânea, mas coisas básicas, para facilitar a vida do homem comum e do menos afortunado”, disse.


Arthur então criticou a reação no Brasil à orientação sexual de Santos-Dumont. “Na Europa, isso não importou, mas no Brasil todos me perguntaram por que falei disso. Eu nem pensei sobre, é simplesmente parte da vida de alguém. É triste que as pessoas não possam imaginar que um herói, um homem destemido, chegasse em casa e fizesse bordado. Ele adorava costurar. Adorava joias. Não há dúvidas de que ele era homossexual”, contou. “Não precisamos ter essa batalha de novo. Ele era somente alguém que amava. Que tinha um coração. Assim como eu e você”, concluiu, arrancando aplausos do público.


Por fim, contou que Santos-Dumont levava um grande lenço branco consigo para poder acenar de volta às pessoas que o cumprimentavam enquanto ele voava. “Escrever o livro, estar aqui é meu modo de acenar a vocês com meu lenço branco”, disse Arthur. Em resposta, alguns membros da plateia acenaram lenços brancos ao autor, que se emocionou. “Meu deus, amo todos vocês. Estou muito contente de ter vindo aqui.”

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