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quarto dia

Em busca do humano na guerra

Após prestar homenagem a Boris Schnaiderman, um dos maiores intelectuais e tradutores do russo no Brasil, falecido em maio deste ano, a Flip deu boas-vindas à bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015.


“Meus pais eram professores e na minha casa havia muitos livros, mas sempre procurei ir à rua, porque era muito mais forte do que aquilo que era escrito nos livros. Isso me marcou para o resto da vida. A vida viva, ainda não lapidada, não afirmada, sem propaganda, sem autocrítica. Sempre busquei isso”, contou a escritora, que, formada em jornalismo, disse se sentir muito limitada por ele. Perguntada sobre como estabelece uma relação de confiança com as pessoas com quem conversa, disse valorizar a entonação da amizade. “Não faço entrevista. É uma conversa sobre a vida. Você tem que achar o humano dentro do ser humano.”


O mediador, Paulo Roberto Pires, aludiu então à era de catástrofes que vivemos, citando a ignorância generalizada, o despreparo geral e as mentiras do Estado em desastres como os de Tchernóbil, na Ucrânia (do qual Aleksiévitch trata em Vozes de Tchernóbil), e de Mariana, no Brasil. “A humanidade tomou o lugar errado dentro da natureza. É muita ingenuidade usar a força contra ela. Os índios no Brasil conhecem melhor a natureza do que nós, hoje em dia, com todas as tecnologias. O mundo precisa de uma nova filosofia de vida, senão nosso progresso vai levar à nossa autodestruição”, afirmou.


Apesar do cenário por vezes apocalíptico, Aleksiévitch mostrou-se otimista. “A vida tem muita tragédia, mas, ao mesmo tempo, tem crianças, flores, amor, pôr-do-sol... Na vida, há momentos em que você consegue ganhar força e continuar a enfrentar as dificuldades. Acho que tenho que passar, naquilo que faço, essa beleza que temos. Meus livros, mesmo convivendo com a tragédia, falam de amor, que é a única saída para nós”, disse, criticando então a cultura do consumo. “Acredito que o homem não vai ser salvo pelo homem racional. Temos somente homens-consumo. Daqui a alguns séculos, vão dizer que éramos homens primitivos.”


Por fim, a escritora declarou que não vai mais tratar do tema da guerra em sua obra. “Não sou uma supermulher. Sou um ser humano normal”, pontuou. “Tudo o que eu quis dizer a respeito das guerras, já disse. Já sofri muito”. Aplaudida de pé na Tenda dos Autores, que teve lotação máxima e ingressos esgotados em menos de uma hora, Aleksiévitch também foi recebida com aplausos pela fila sinuosa que se formou a espera de seu autógrafo, contornando o rio Perequê-Açu.

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