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quinto dia

O conflito na Síria sob duas perspectivas

A primeira mesa do domingo (3/7) teve participação da repórter Patrícia Campos Mello, especialista na cobertura de áreas em conflito geopolítico, e do escritor sírio Abud Said, que tornou-se famoso ao publicar fragmentos de seu cotidiano no Facebook. Logo no início, no entanto, Abud deixou claro que não falaria sobre guerra ou política. “Sou bem menor do que esses assuntos complexos. A vida é simples, bonita. Por que valorizar o que não precisa ser valorizado? Ok, está acontecendo uma guerra. Mas é uma coisa do dia a dia, acontece”, declarou.


Abud também brincou com o fato de não se considerar um escritor – “escrevo o dia a dia de maneira simples, e o pessoal mais preparado me explicou que isso é literatura”, disse. Patrícia, que disse achar interessante ele não se definir pela guerra, contou então sobre sua vivência enquanto jornalista. “Minha experiência obviamente é muito diferente da do Abud. Eu entro e saio. Ele tem a real experiência”, disse.


Patrícia aproveitou para agradecer à receptividade do povo local. “Para nós, é difícil cobrir o outro lado, por motivos óbvios, como a falta de acesso. Sem os sírios, os jornalistas estrangeiros não são nada. São eles que entendem o lugar, a cultura, que são os tradutores.” Aplaudida, falou também sobre não ter o direito de sentir medo: “Gente como o Abud mora lá. Eu passo um tempinho. Volto, não volto. As pessoas estão lá tomando bomba na cabeça todo dia. Eu ter medo é uma coisa absurda”.


Perguntada sobre como ser mulher interfere no trabalho, ela afirmou ser uma vantagem. “Como mulher, tenho acesso a 50% da população que os homens não têm. Entrevistei mulheres que foram estupradas, foram escravas sexuais. Esse tipo de coisa elas não vão falar para os homens. Há limitações, óbvio, mas [ser mulher] mais ajuda do que atrapalha”, alegou.


Em fala controversa, gerando um misto de vaias e aplausos da plateia, Said fez uma crítica ao que chamou de “jogo sujo”. “O jornalismo, a mídia, as organizações de direitos humanos, o conselho das Nações Unidas, os intelectuais, os escritores, todos eles estão fazendo um jogo sujo, e eu não gostaria de participar disso. Cada país pode declarar o que quiser, e é um assunto importante. Mas eu não quero falar sobre bandeiras de jornalismo livre, de direitos humanos. Que direitos humanos? Não existe isso. Tem gente que quer ganhar dinheiro com isso, eu não quero participar dessa jogada. Sou egoísta, estou feliz comigo mesmo, não quero ser a voz da Síria.”

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